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quinta-feira, 22 de setembro de 2022

O Tear de Névoas

 

 


O Tear de Névoas




C. J. Jacinto




Dois pequenos reinos existiam ao sul do meridional norte, eram opostos em valores, o primeiro chamava-se pradator e era um pequeno campo com alguns prados e um rio, chamado Pisio, que irrigava todos os seus contornos. O rio serpenteava todo o Reino e então mergulhava para o profundo da terra, assim surgia e assim terminava seu curso sobre Pradator. O reino era cheio de flores, videiras, macieiras, cerejeiras, castanheiras, e seu rei, um homem cheio de virtudes.


O outro reino é um território pantanoso, cheio de árvores mortas, um lugar onde as Névoas repousam como se fossem lápides de sombras. Ali também um rei reinava, um homem cheio de orgulho, inveja e ódio. O nome do reino era Lutum, um lugar que hospedava a lama e or orgulho das sombras. Sei rei era notável por sua decadência moral e suas tendências egoístas. Aliás, basta que um homem transborde em orgulho para que as sementes de todas as outras malícias cresçam dentro do proprio coração.


Os dois reinos eram singulares, não havia súditos, os reis eram solitários, viviam numa solidão pessoal porem o coração era povoado de sentimentos pensamentos e desejos, mas no caso do rei de Pradator, ele cultivava o campo, assistia o comércio das borboletas e abelhas, transportando pólen, as formigas carregando pedaços de folhas, havia a colheita de amoras silvestres, as uvas e a fabricação do vinho no lagar e o por do sol seguida da noite cuja escuridão, empurrava as estrelas para trás dos prados enquanto os pirilampos passeavam pra lá e pra cá.


O rei dos pântanos vivia escondido nas sombras e nas Névoas,  aquele lugar parecia ser o jazigo de uma noite eterna.
O contraste dos dois mundos, tão perto e tão distantes,  e cada rei satisfeito no seu reino. A apreciação do mundo exterior é antes um reflexo da vida interior.


Mas um dia, emergiu possante os tentáculos da inveja no coração do rei dos pântanos, sua revolta se deu ao subir em uma das árvores mortas e ver os prados floridos e as florestas de castanheiras , ipês amarelos e as videiras que revestiam algumas pequenas colinas de Pradator.


Ele armou-se com sua lança de ossos e revestiu-se com sua armadura rústica de couros. Seu intento era invadir e matar o rei de Pradator para tomar posse de tudo e anexar ao seu pântano.
A notícia, porém chegou aos ouvidos do Rei de Pradator que ouviu os pensamentos que o coração do rei do pântano dizia  e se preparou para o iminente confronto, tomou sua lança de prata, vestiu a sua armadura de bronze e calçou seus sapatos de cobre. Os pássaros cantavam tristezas, nuvens escuras começaram a cobrir o céu azul de Pradator, as abelhas e as borboletas se esconderam, as flores tomaram seus perfumes e as árvores frutíferas esconderam seus frutos. Tudo parecia se retrair perante a presença sombria das intenções do rei do pântano. Um coração que se escurece pela inveja torna-se uma alma miserável, essa era a condição do rei de Lutum,  assim o conflito era iminente e inevitável.


Os dois reis se encontraram no vale de Arkon, território de Pradator, o rei do pântano era o invasor e o outro o defensor.
Infringiram ambos, ataques, mas o rei de Pradator perdeu sua lança de prata, o que segundo a lei dos nobres, era o perdedor, perder as armas era considerado como perder a própria vida, da mesma forma como entendemos hoje que perder o ânimo de viver e perder a gratidão pela existência.


O rei de Pradator então saiu cabisbaixo da batalha, entregou o reino ao vencedor e desceu para o abismo dos mares.
Solitária alma no fundo de um oceano de prantos, ali estava o rei derrotado, porquanto o vitorioso rei de Lutum com sua lança de ossos feria os carvalhos e as videiras, as abelhas e as flores choravam, as estrelas se escondiam por trás dos prados, as borboletas se refugiam nas penhas,  a terra sangra, o sofrimento é o fim do mundo.


O rei do pântano toma um pergaminho, e vai narrar sua vitória, absurdo obsoleto que os inimigos dos fatos escrevam a história, a vitória é apócrifa quando a maldade deseja descrever sua luta insólita contra a bondade.


Acaso podem as trevas dominar a luz? As demandas da vida real ensinam que elas subsistem na ausência dela.


Pradator sofreria uma metamorfose inversa, da matriz de todas as estações se transformaria em um pântano sombrio? Aos olhos de quem não contempla as flores toda a sombra parece uma obra de arte, e se a luz revela a alma da beleza, a escuridão apenas esconde todas as suas formas. Só uma alma doente pode deleitar-se com a mentira, pois o homem bom sempre sofrerá quando ela reina sobre os outros homens.


O rei de Pradator precisa reagir,  e frente à carcaça de um navio que jaz na inércia de um naufrágio súbito,  como uma estrela do mar, quer seguir rente a praia, e como o sol, quer punir a madrugada fria com a luz possante do amanhecer, a aurora e a ressurreição de uma tarde que dormiu no túmulo da noite.
É preciso ter coragem, pois em dias tenebrosos a coragem é a virtude que abre o caminho da esperança, a coragem é uma grande virtude que não cabe em corações mesquinhos. O rei de Pradator tinha um coração nobre, e reage ante a situação, entra no seu reino devastado, encontra a sua lança de prata jogada no lamaçal das lágrimas das nuvens. Ele toma a lança, procura o seu inimigo, e ao encontrá-lo grita em desafio, pois vai enfrentar novamente o rei das trevas o senhor de Lutum.


O rei do pântano se surpreende pela coragem do retorno do seu adversário, e com uma risada sarcástica avança furioso contra o rei de Pradator. Porém a luta tornou-se acirrada, e finalmente o rei do pântano recebeu um golpe fatal, sua lança caiu longe, o rei vitorioso correu até o artefato de ossos, e tomando uma espada, despedaçou-a completamente, o rei do pântano soltou um grito agonizante, correu para o seu trono e afundou na lama fétida do seu obscuro reino lamacento. Lutum é o luto da morte eterna


Répteis e bichos peçonhentos imergiram na lama com ele, naufrágio de todas as maledicências, mergulho de todos os assombros.


O pântano começou a secar-se, naufragava para o abismo de onde saiu, pássaros de Pradator começaram a  levar sementes ao solo ressequido do reino morto, beija flores molhavam suas asas no rio Pisio e iam até lá para baterem suas asas molhadas e irrigar a terra seca do jazigo das lamas ressecadas,resquícios de um reino que se foi,  e o deserto floresceu, o rei de Pradator anexou todas as terras conquistadas ao seu reino, as borboletas saíram de seus esconderijos, a vida voltou ao normal, a luz triunfou sobre as trevas, a beleza sobre a feiúra, a verdade sobre a mentira.
Até hoje, Pradator é um reino de força, crianças vieram para habitar no reino bem aventurado, Pradator tornou-se uma referência na importação de virtudes como coragem e resiliência, e através da magnífica história do seu reino, cabe aos historiadores falarem sobre o poder do amor sobre a inveja, e da humildade sobre o orgulho.


Extraido de:  Contos Ordinarios e Extraordinarios

 

sábado, 10 de setembro de 2022

Livro Grátis: Metamorfose (Poemas)


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sexta-feira, 9 de setembro de 2022

OS PÁSSAROS CANTAM NA CHUVA

 

OS PÁSSAROS CANTAM NA CHUVA

 

Manhã de setembro: A estação ainda é inverno, a luz da aurora traz os primeiros contornos de montanhas verdes azuladas, o céu está cinza, pelo frescor do ar sentimos que a umidade é prenúncio de chuvas.

Meus olhos: ainda recém abertos, saindo do mundo do sono, contemplam o mundo do novo dia, a seqüência de meus sentimentos é ouvir e o que ouço são barulhos celestes, a chuva começa a cair, e com ela as névoas penetram no espaço a minha volta e em seguida, celebrando o dia que chegou, pássaros cantam.

Esses ternos cânticos audíveis em presenças longínquas, caracterizam a vida e faz germinar no coração a nostalgia e a solidão, aquela saudade prodiga que fica sempre escondida dentro de nós e emerge quando a ocasião é oportuna.

É meu coração quem fala, eu permaneço em silêncio, procurando o tédio por trás da neblina, e, por motivos tão pessoais, levar consigo o sentimento de irritação: Dia de chuva.

Meu coração parece transbordar de felicidade, mas em mim cresce na outra margem de mim mesmo a irritação, e os ouvidos continuam atentos, pos os pássaros cantam,. e o que realmente isso significa para mim.

Na dualidade de meu interior, percorrem as duas fluentes sentimentais, uma e outra numa guerra constante que não pode ser apaziguada. O canto de um pássaro mais próximo, a alegria das chuvas, as asas molhadas, o frio úmido das manhãs, o vento que parece tão chato, meus sapatos molhados, e a continua sinfonia que quebra as náuseas da alma, a deriva, uma voz que desliza pelas gotas, como se elas fossem sinapses navegáveis, onde o som pula até chegar aos meus ouvidos.

Meu coração se alegra, mas ainda assim há dentro de mim uma tristeza, e nessa síntese de sentimentos, eu mesmo me encontro na encruzilhada interior, e preciso fazer uma escolha: Sorrir ou chorar.

Sete horas da manhã: é um dia chuvoso, uma completitude de ser oposto, águas que afogam meus sentimentos, me sinto fraco como uma folha arrancada pelo tempo, desprendida da altitude para fenecer calma no chão tumular.

Na sombra gelada das florestas o ribombar de trovões dos  lançam luzes que assustam as sombras, as que se encontram dentro e fora de mim. Uma permuta misteriosa entre o coração e as nuvens, a troca das lágrimas humanas pelas goteiras dos lamaçais:  um refúgio nas quimeras de meus olhos.

O meu coração que pulsa e bater, intranqüilo nas quermesses de vasto campo confuso que é a minha memória, eu me lembro que os pássaros que cantam, fazem por instinto de gratidão.

Pois nos ramos das árvores mais robustas, entre os ramos e as folhas, os pássaros encharcados cantam para as chuvas dançarem, e eu? Apenas choro por alimentos que se efetuam pelos sentimentos, uma raiva medonha que assombra meu coração assustado: é dia de chuva.

Quando ouço a música invernal, quase um eco que se perfura entre a solidão e o cansaço, sentado na vida a espera da chuva passar, a sinfonia de pardais é tão confusa, se xingam ou discutem as chuvas inteiras ou apenas o gotejar sob suas penas, não sei: quero o sol.

Eu retenho as dores do fardo, dia chuvoso, como um cuco-jacobino, sedento aos milênios, trancafiado dentro de mim, esse coração sedento, como a samaritana do poço de Jacó, abre a abertura bucal o coração, e bebe das gotas pares e ímpares das nuvens que repousam as sombras marítimas sob minha cabeça.

Viagem da alma pelo túnel da memória quando a orquestra  do Saci cantava por trás dos montes e eu ouvia na tarde chuvosa aquele tom dantesco de quem oprimia meu coração até o ponto de ebulição de chagas, e tudo era tão bem traduzido o canto dele

(Tempo triste)

(tempo triste)

(Tempo triste)

A voz antiga de minha vovó que ouvia comigo, aquela canção do pássaro que por trás de colinas distantes, uma distancia cósmica entre todos os meus sentimentos, que de doce memória, jaz ente dentro de mim, que feliz lembrança minha voz dizia:

- o Saci está anunciando que alguém morreu. Pois ele está cantando:

(Tempo triste)

(Tempo triste)

(Tempo triste)

E era à tarde das chuvas, e eu na infância conhecia o pêsame, quando ouvia trêmulo essa canção (tempo triste) que anunciava a vontade de chorar assim eu também chovia por dentro, para encharcar a minha alma de lagrimas de tristeza.

 

Descobri a mecânica dos sentimentos, que chorar é bom, se não fosse à experiência da transcendência do belo, a radical postura de que uma alegria extrema também faz o coração chorar, não seria compreendida.

Um dia de chuva abastece os mananciais, cantar na chuva abastece o coração de alegria, então precisei reajustar o coração para ouvir os pássaros da tarde, aquele misterioso cântico que para os antigos  era tristeza, tornou-se alegria

 

Jaz, porém a memória como uma voz indissolúvel, aquele cantarolar solitário por trás das campinas do entardecer, a perpétua sinfonia da minha infância:

(Tempo triste)

(Tempo triste)

(Tempo Triste)

 

Autor: Clavio J. Jacinto

Extraído de: Contos Ordinários e Extraordinários

Direitos Reservados.

 

 

 

 

 

O Outro Lado do Espelho

 


O Outro Lado do Espelho



Elnoke estava penteando o cabelo diante do espelho no banheiro, atividade rotineira após o banho da noite, num lapso de segundos seu corpo caiu inerte no chão e sua alma foi sugada para dentro do mundo inverso e misterioso do espelho que estava a sua frente, consciente e assustado percebeu a própria alma flutuando num universo unidimensional a olhar o próprio corpo inerte no chão no outro lado, ele tinha deixado seu mundo real e  tridimensional. Era um acontecimento factual, inusitado, sem o consentimento próprio, uma fatalidade desesperadora, tentou retornar, mas não conseguia sair daquele universo silencioso, misterioso e frio, um mundo de todas as inversões. A começar, sentia que a sua alma asfixiada, um lugar que oprimia tudo dentro de um plano unidimensional  O senso de localização o norte parecia ser o sul e o sul norte,  a impressão de que não podia mover-se para frente e para trás, mas apenas deslizar-se para cima e para baixo  como grudado a uma parede de vidro.

 

Algo extremamente estranho e agonizante.


Um anseio de voltar ao mundo normal emergiu do coração de Elnoke, mas como? É impossível viver em um mundo de coisas invertidas, nas entranhas desse espaço monótono o tempo retrocedia ao invés de avançar, e da maturidade passava para uma infância sem lógica, até tornar-se um espermatozóide, uma decadência do senso comum, um processo de retrocesso, um caos, quando as coisas parecem sair da sua ordem normal.

Ele pensou como pode um homem viver fora da lógica da ordem primaria em que as coisas existem para funcionar.


Mas Elnoke conhecia seu mundo real, viveu nele, seu corpo interagia com as funções de um universo verdadeiro,  agora estava ali, na agonia das coisas contrárias,  olhou atrás de si viu o sabonete, mas já não era um sabonete, mas etenobas, que nome estranho, e que artefato estranho, sem cheiro, só uma forma aparente, se tomasse sua identidade, seria agora seu nome "Ekonle" que insolência!  A função da vida é manter as coisas na ordem lógica de suas funções verdadeiras, o mundo não subsiste pela ilusão e nem pode permanecer real pelo engano. Essa é a lei para a vida, a cosmovisão percorre a biogênese e permanece como a lei da unidade recíproca para manter a ordemcda continuidade.

Permanecer num mundo de coisas insólitas e contrárias á verdade e cometer um suicídio existencial.
E então, o que fazer? Elnoke mergulha no deslize abaixo que parece ser pra cima. Seu mundo parecia de cabeça pra baixo, como as funções de seus olhos fossem alteradas, de baixo pra cima e de cima para baixo, que loucura, lembra-se de maçãs, e o que antes amava, agora odiava, pelo menos ainda tinha um resquício de sentimento se é que era sentimento, talvez apenas repulsa, maçãs eram objetos obsoletos sem sabor naquele mundo, e ainda sem calor e sem frio, Como seria a água do mar? Afinal há pessoas e um mar? ou apenas reflexos delas, sem vida, sem sonhos, sem ideais. Que coisa complicada, a flutuação levou o pobre homem que é só alma, para um mundo escuro, um lugar que o espelho não alcança, então precisou voltar, para a posição geográfica onde o espelho reflete a realidade.


No desespero de sair daquele mundo perturbado cheio de contrários e imitações, onde o verde ainda era verde e o branco ainda branco, onde a luz brilha e retorna na a natureza sua fonte como luz, sem sofrer alterações nos fundamentos da essência em que existe, Elnoke nota que a luz consegue sair fora do mundo avesso no enigma do universo do reflexo, mas uma alma na sua natureza insípida e apagada permanece ali naquele duplo imaterial de contradições, um jazigo onde absolutos, essências e realidades ficam expostos a gravitação de todas as decadências. Vejamos o mundo dos sentimentos, essa força de oposição de um universo alienado, símbolo da ausência de todos os princípios, o mal pode ser chamado de bem, o ato pode parir a morte, a mentira pode ecoar como uma verdade, pois o inverso sempre será uma contradição, a tese e a antítese não se misturam no mundo real, se isso ocorrer, há um colapso no sentido da realidade do algo, mas no mundo do espelho as coisas podem ser invertidas, mas essa é a inversão dentro da ilusão.


Elnoke lutava contra uma dissonância cognitiva, o ser favorável num mundo ilusório ao que seria oposição no mundo real, então há uma luta interior, sua personalidade que é interior precisa corresponder-se ao reflexo do que é, e neste ponto, o da imagem que corresponde a realidade, o reflexo ainda transmite uma verdade, mas ao refletir a palavra escrita, há uma violação semântica, um homicídio do sentido e da conexão dos significados reais.


Não pode existir essa distorção no mundo real, a imagem da cruz por exemplo deve corresponder a sua essência semântica , o termo "zurc" não corresponde a imagem, a quebra da harmonia entre fato e verdade é potencialmente destrutivo , o mundo das inversões em que Elnoke estava, destruía todo o sistema semântico, e então comprometia a sua própria identidade, ele era em imagem, mas ninguém mais o conhecia pelo sua identidade verbal.


Elnoke percebia a impossibilidade de viver nesse universo inverso, a importância de ter um corpo com as sensações e todos os mecanismos biológicos que interagem com o mundo físico. Acima de tudo viver dentro de realidades objetivas, a verdade imponente como principio aplicado a cada fator tal como é.
O universo dentro do espelho era apenas uma imitação do mundo, não o real, tinha algumas verdades refletidas, mas eram subjetivas e sem essência. Uma fotografia móvel, mas sem realidade. Uma maçã  tinha aparência de maçã, mas não tinha qualquer sabor, e no que diz respeito às virtudes mais elevadas elas não existiam. Apenas imagens, e Elnoke estava asfixiado em um sistema sem sensibilidade, pois a sensibilidade é o que mantém o coração conectado com a essência  de todas as coisas.


Por trás da realidade, a vida do pobre homem preso ao reflexo deixava uma advertência: Quem na ilusão enxerga a verdade encontra a esperança e quem na verdade enxerga a ilusão é tentado a perdição.
Elnoke percebia isso, além do mais notava que perdia todos os seus sentimentos, a noção do instinto do ser parecia a única coisa dentro de si.


O espelho é um universo ambíguo, pois e capaz de revelar o sorriso de um rosto e ao mesmo tempo esconder a tristeza do próprio coração.
A experiência de um mundo com forma projetada de imitação não de realidade objetiva tornou-se um perigo.


A realidade mostra a beleza das flores e o perfume de cada uma delas, o mundo do reflexo está condicionado a mostrar a aparência das flores e nada mais.
Ele precisava se livrar daquela prisão, onde não podia mudar nada, ninguém consegue alcançar a felicidade sem mudar as coisas a sua volta, um universo asfixiado por fatos e ambigüidades,  a luta de Elnoke era a libertação, libertar-se de uma condição servil de alienação, precisava voltar ao corpo, integrar-se novamente ao mundo real, nada mais do que uma transcendência aos fatos, sem, contudo perder a visão metafísica da existência.

Quando perdemos o sentido da verdade nunca alcançamos uma utopia, pelo contrario percorremos o caminho da destruição


Elnoke batia forte pelo lado de dentro tentando quebrar o espelho e sair, mas era como um impotente diante da luta por libertação precisava da ajuda de algo ou alguém que pudesse entrar e sair daquele mundo estranho. Só então notou pela janela, uma estrela forte, o planeta Vênus, trazendo atrás de si um fulgor, era a aurora, e com ela o sol resplandecente que bateu sobre o espelho, e sua luz entrando e saindo, Elnoke agarrou-se sobre partículas e ondas, e conseguiu sair daquele universo obsoleto, o corpo em estado de inércia recebeu novamente a consciência, Elnoke olha para o espelho e vira as costas a ele, é o mundo real que ele deseja, respiração profunda, o cheiro das flores, a brisa refrescante os pássaros cantando, o sorriso no rosto. É a vida como deve ser vivida e os fatos como devem ser aceitos.

 

Extraído de: Contos Ordinários e Extraordinários

Autor: Clavio J. Jacinto

Direitos reservados.




 

Flores Sem Primavera

 


Flores Sem Primavera



É uma norma de a vida acreditar ser  muito difícil viver uma vida isolada. Pois bem, a história que vou narrar é totalmente desprovida de algo ordinário, digo assim pois se trata de uma estória peculiar, porém anormal. Ela se dá num campo de altitudes, típico desses planaltos cujo cume parece unir em matrimônio noturno flores e estrelas. E não seria inédita a narrativa, se não estivesse desprovida de atitudes solenes, como supor que o orvalho são lágrimas de flores solitárias.

Uma lavanda azul vivia no campo de altitude numa montanha chamada Karmon. Sua tristeza era visível ao coração que observa o significado profundo dos mistérios, as borboletas e as abelhas não vinham visitá-la, muito menos ainda os beija-flores. Não sei se percebermos, mas a complexidade da existência começa quando não encontramos a sintonia com as coisas que complementam o sentido e a resposta pelo qual existimos e estamos neste mundo. Quem sabe um perfumista alcançaria as alturas, mas isso é uma aventura cujo papel na nossa vida desempenha os alpinistas. E, se as respostas fossem encontradas?

Naquela manhã de inverno, no mar congelado de relvas verdejantes, o que se ouvia era um ruído acústico do vento cortante. Gramíneas conversavam sorrindo, não se sabe o que, mas estavam felizes.

Havia duas pequenas árvores ao lado, e numa noite de sonâmbulos, cravaram um diálogo na noite, quebrando o silêncio do lugar. A árvore mais velha, retorcida, calva de poucas folhas, ressequida pelo tempo, numa voz rouca, mas vigorosa, explicava a mais nova que as árvores do cume eram nobres por causa da maneira como enfrentam toda sorte de intempéries, e insistem em viver os desafios de todas as tempestades
- A vida meu pequeno e novo companheiro consiste em viver a dureza da existência das alturas, e depois ter a possibilidade de servir a uma causa ainda mais elevada. Somos madeiras cobiçadas pelos homens, eles nos procuram nós temos a virtude da dureza, então podemos ser úteis para os fins que exigem resistência e durabilidade.


A árvore mais nova tremia ao ouvir tantas coisas, mas se sentia feliz.

E as pedras? Sim as pedras apenas viviam a vida nas alturas, eram quase eternas, todas as noites olhavam imóveis para as estrelas e viviam fixas como as estrelas que gostavam de contemplar.


Entre o frio e as chuvas o sol e a luz do luar, faziam votos de um perene silêncio ante o belo e o misterioso.


Voltemos a nossa pequena flor solitária, ora, as lavandas e alfazemas viviam em abundância lá embaixo nas campinas e vales. A fragilidade quando encontra as circunstâncias que exigem coragem, torna-se valente pela ternura. O amor sendo o mais doce dos sentimentos suporta as mais amargas traições. O desafio da existência é o ser sem ser observado, mas isso não impede que a vida seja vivida com um propósito.  Muitas flores vivem a beira do caminho, mas ela só torna-se especial para os que perceberam que elas estavam ali, não no no caminho mas na vida, há uma diferença enorme entre algo que é por causa do existir em si mesmo e o que é, por causa da existência dentro de nós, o que transcende para dentro do nosso coração torna-se a excelência da nossa afeição.


A tristeza da solidão é a mais difícil de superar, então ser uma flor sem abelhas, sem borboletas e sem beija-flores é um modo de ser limitado pela inquietação das ausências, o silêncio da solidão tem todas as friezas da tristeza, é algo extremamente doloroso, mas também é fértil.

A vida não é feita de quimeras complicadas, é feita de coisas simples e valorosas, mas é necessário que se tenha percepção dessas coisas valiosas, é possível ter tantas coisas fora de nós, e o coração vazio de alegria,  o contrário também é fato, e possível ter poucas posses e ter o coração cheio de alegria. E às vezes devo ser franco em admitir que uma flor que desabrocha faz de um dia qualquer dia especial e de um momento simples em um acontecimento extraordinário, no universo todas as coisas são projetadas com um propósito.



O Karmon ao longe parecia imponente, mas um alpinista subiu até o cume, ele estava em busca de paisagens arrebatadoras e experiências profundas.
Passeava pelos campos de altitudes com uma máquina fotográfica e um coração aberto. Muitas vezes os homens andam com os olhos abertos, mas o coração permanece fechado para a verdade.


O alpinista encontra a solitária lavanda azul. Os olhos de Admiração se abriram, uma solitária flor do vale revestida de uma das mais raras virtudes, a coragem. O belo não é frágil, pelo contrário, precisa ser forte para permanecer belo em um mundo de horrores. Assim como os bondosos são mais fortes, pois é necessário coragem para exercer a bondade em um mundo cheio de maldade,  o ser bondoso é um herói quando insiste em praticar a bondade aos corações mais ingratos, assim como as flores não desistem de serem flores porque os insensíveis pisam sobre elas.


Ainda surpreso com o achado, retira da mochila a sua câmara fotográfica e tira uma foto espetacular de uma lavanda azul em contraste com a relva cinzenta e as pedras daquele lugar.  Difícil explicar quando você encontra algo que é normal no vale, mas que é extraordinário nas alturas  Onde nosso coração escolhe viver, ali mesmo a alma torna-se ordinária ou extraordinária. O alpinista olha para o relógio, percebe o entardecer e se prepara para descer o Karmon. Alguns dias depois, a foto que ele tirou recebe uma moldura e vira um quadro para decorar o palácio de um rei.  Que a erva no campo tem seus encantos não há dúvidas, porém a arte de viver uma vida extraordinária é a missão dos que desejam ultrapassar os limites das possibilidades e impor a si mesmo a coragem de enfrentar os desafios que a vida oferece. 

 

Autor: C. J. Jacinto

Extraído de: Contos Ordinários e Extraordinários

Direitos Reservados

 

A MARCHA DOS INFANTES

 

A MARCHA DOS INFANTES

 

C. J. Jacinto.

 

Uma criança, meio adulto e meio mendigo, a pausa diante de um olhar diante da abertura de um túnel que levava para o outro lado da montanha, um vale desconhecido aos olhos infantes alimentado por um coração que sofria com a fome da aventura. Um lugar estranho, crianças e mais crianças, meio adulto meio infantes, maltrapilhos e mão sujas. Um planeta sem orbita fixa, um lugar nenhum fixo no espaço e no tempo. No coração, uma encruzilhada, deveria ou não entrar pela boca do túnel? á sua frente, um infinito de escuridão, nem mesmo um lampejo, nenhuma estrela pulsante e nem mesmo a alma de um pirilampo, apenas um mar de escuridão, sombras acústicas e talvez teias de aranhas presas no naufrágio de todas as ausências, pois a escuridão rouba a forma das coisas e transforma as coisas num nada.

Pois então, a criança vai entrar, mas antes, precisava acender uma vela, e ateando fogo ao pavio, a chama flamejante parece ser um pequeno sol a refletir nos olhos negros de uma face suja e fofa, uma criança e a coragem de um adulto, um passo a frente e outro, e a invasão, a quebra da barreira da escuridão espessa, pelo menos alguns centímetros a sua volta, o suficiente para dar o próximo passo, e então á direita e a esquerda, dezenas de crianças sentadas nos dois cantos, uma  a uma, a mais ou menos avançando a cada metro de distância, e em suas mãos. Uma vela, não acesa, criaturinhas inocentes nas sombras de uma existência escassa, inquieta, misteriosa, nas turbulências da existência. Então nosso corajoso herói, com uma luz acesa nas mãos, vai e começa a compartilhar o fogo e a luz, e cada criança que recebe, se levanta, com uma vela acesa nas mãos, e uma após outra, cada um ajudando a expandir o fogo e a luz, seguem numa marcha triunfal sobre a escuridão que antes reinava naquele recinto tubular, e uma apos outra na marcha seguindo a primeira criança, um grande exercito de infantes corajosos, é a queda das trevas, a derrota do império das sombras, ouve-se os passos de um grande numero de crianças, uma após outra com a luz radiante que absorve cada metro sombrio. A marcha durou um pouco mais de uma hora e a surpresa veio no fim do túnel, quando deram entrada ao final da trajetória no outro lado, no vale, que por sinal era extenso e era  também sombrio. Mas vela após vela, cada uma acesa em cada mão direita que segurava o fogo errante e vivo, os seus milhares, o vale se acendeu como se fosse uma aurora caminhante, um exercito de estrelas terrenas, unidas na correnteza de um adeus as sombras, para fazer com  que a luz triunfe sobre as circunstancias malditas da morte de todas as formas.

A união de todas as chamas, como a vertente de vulcão vivo cuspindo fogo, a revolução de um amanhecer que avança tenazmente sobre a madrugada fria e longa, a ponderar que as fagulhas fervem sobre o orvalho e a floresta revela seus segredos na linguagem dos pássaros que cantam os mistérios da linguagem harmônica do pulsar da vida.

O momento da ressurreição da esperança daquelas crianças acorrentadas pelos grilhões da escuridão, cada uma delas, em sorrisos agudos e transparentes, como as rosas que desabrocham no jardim depois da tempestade ou como o arco-iris mais sublime que injeta as cores no ar, como um artista invisível que pinta os fragmentos da luz nas esquinas do espaço e do tempo. Elas cantam.

Da canção orquestrada pela alegria de sentir a luz e a beleza das formas ainda aquelas mais primitivas, como as samambaias e as suas folhas que dançam ao vento.

Dos mistérios da vida que procede a luz, o sol que a criança recebe como herança e até a velhice ainda continua iluminar seus passos até a morte, aquelas velas queimavam mas não havia desgastes repentinos, algo tão enigmático quanto a luz que atravessa as entranhas mais profundas do universo e repousa sobre os olhos que contemplam as estrelas mais distantes da noite.

Assim reunidas em círculos, àquelas crianças queriam saber quem era aquela pessoa de cabelos grisalhos, em pé sustentados por uma bengala, as mãos fracas onde as células sofriam abalos sísmicos da carne envelhecida pela idade avançada, olhavam a cena tão triste daquele ancião que tentava erguer a própria vida no escombro do tempo, a entropia das horas que se transformavam de momento a momento em passado, até tornar-se tão remoto, que o berço nascente era um acontecimento longínquo perdido nas eras mais primitivas de todas as saudades.

 

Os grãos da vida sendo debulhados por seqüências, e a espiga nua sofrendo a frieza de um despojo inevitável, as crianças admiradas diante de tão flácida criatura gemendo, cada uma delas se compadecendo por sentir a parte humana que lhes comunicava pelo fato.

A decifração do enigma de tão estranho acontecimento, o medo de tornar-se como aquela criatura, a primeira criança a acender a luz, a seguir por instinto a liderança sob as demais resolveu retornar pelo túnel e voltar a sua antiga civilização, e dando meia volta, todas as outras a seguem, e em silencio marcham num retorno épico para o antigo mundo de onde partiram, e a passos largos, como quem segue fugindo do medo, repelem a própria sombra e corre para buscar abrigo, cada uma delas retorna.

Uma marcha silenciosa e inquieta, a pressão dos sentimentos espessos como as sombras afugentadas, reunia cada uma delas todas as forças necessárias para o regresso. E, num transtorno de miragens intimas, sentiam o cansaço agudo a tocar no coração que disparava em batidas cardíacas tão intensas que parecia a vida se colapsar de fadigas.

Passaram-se os minutos e as horas e enfim, chegaram ao destino que já foi uma partida, e muito cansadas, cada uma delas, chegou ao lado de cá da vida, e retirando de suas bolsas, cada uma delas, um espelho. Antes porem lavaram seus rostos carregado de fuligens, e ao limparem a face, erguendo o espelho descobrem, cada uma delas, que estavam velhas...

 

Extraído do livro: Contos Ordinários e Extraordinários

Direitos Reservados

Prisioneiro dos Sonhos.

 


Prisioneiro dos Sonhos



Era um entardecer chuvoso, da janela podia ver o dia mergulhar na noite, uma sensação nostálgica, comum nos dias de chuvas. O cheiro da umidade, um aroma próprio das tempestades, uma tonalidade de cinza e névoa, o calor da lareira, o ambiente penetrante, como  um mundo antigo percorrendo a senda das horas frias.


Fui dormir cedo, eram 19:00, lá fora o reino da noite chorava e eu ouvia as lágrimas caírem do telhado, elas caíam sobre a terra e a relva, e eu fechei meus olhos, para entrar no meu descanso profundo.


Adormeci para o mundo antigo e acordei para um mundo novo. Estava diante de uma praia de areias brancas e águas tranqüilas, um barquinho de papel e mais além, uma ilha, chamada de Calvária.


Embarquei no barquinho de papel e segui rumo æ Ilha.
Algumas horas depois cheguei lá, como era linda toda aquela cena! Um paraíso adequado para ser chamado de sonho, mas aos olhos da alma parecia tão real, um sonho bom é uma vida dentro de uma vida.


Deixe-me dar uma descrição da ilha, Calvária tinha muitas árvores, todas eram floridas, muito parecidas com manacás, mas as flores eram vermelhas, havia também campos de rosas sem espinhos e lavandas tão azuis, que pareciam espelhos do céu.


Essa é uma imagem fiel do que observava. Havia uma trilha, e eu comecei a caminhar para o interior, precisava achar uma fonte de águas, subi um pequeno monte elevado e logo depois um vale, um pequeno lago e uma vila, pequenas casas douradas e chaminés de barro vermelho, quando cheguei perto, um portal anunciava boas vindas, e o nome da cidade Sarõnica.
Havia uma praça em forma de cubo de cristal e refletia para o oriente um prisma de cores muito vivas. A cidade estava vazia, por intuição percebi que não havia ninguém na ilha.
As ruas de Sarõnica eram de um material desconhecido e muito vermelho. Sai da cidade e fui até o pontal do norte, onde havia um farol, uma torre e uma lâmpada em formato de coração que emitia uma luz azul flamejante e muito intensa.
Tão magnífica era aquela ilha, oferecia uma majestosa tranqüilidade, voltei para a cidade, logo percebi, que uma espécie de névoa chegava a cidade, também um vento suave, porém muito forte. Lembrei-me que o barquinho de papel estava na praia, corri até lá e percebi que as águas agitadas desmancharam meu barco e o papel se despedaçou.
Como poderia retornar à praia de onde parti? Como poderia voltar ao meu mundo real? Calculei a distância e julguei quase impossível retornar nadando. Sentei-me na praia, a névoa cobria a ilha, mas de tal modo as partículas brilhavam, que as noites eram bem iluminadas. A razão das névoas serem brilhantes era a praça em forma de cubo que emitia aquele prisma.
Eu precisava encontrar uma folha de papel, construir um novo barco para voltar pra casa, resolvi voltar para Sarõnica, ali talvez encontrasse o papel.


Entrei na cidade, estava disposto a procurar um livro, entrei em uma das casas, na porta havia uma descrição: "biblioteca".  Dentro, havia muitos livros, todos de capas metálicas, de cores variadas. Tomei um dos livros, entre centenas ou talvez milhares que haviam ali.  A capa era branco prateada, abri e notei que não haviam número nas páginas, mas o livro parecia ter aproximadamente duzentas folhas, era um livro perfeito em todos os detalhes, e a surpresa maior foi ter encontrado uma frase, não havia nada mais do que uma grande  frase, e era esta:

"Os bens mais valiosos que devemos buscar na vida, são aquelas coisas pelos quais nos inspiram a viver com coragem"

Fechei o livro, fiquei olhando pela janela da biblioteca, aquela frase me causou certo impacto, no céu azul, nuvens de borboletas voavam com tal ímpeto como se quisessem mover as montanhas de Calvária.


Eu precisava de uma folha de papel para fazer um barquinho e retornar para casa, mas aqueles livros não eram do material que procurava.


Logo descobri que cada um daqueles livros tinha uma frase, uma mensagem que movia o nosso coração para um mergulho na sensibilidade.  Fui até outra estante, peguei um livro de capa dourada, abri suas páginas para descobrir qual frase estava impressa ali, e fiquei impressionado, eis a frase:




"Aquele que aprendeu a sonhar também aprendeu a olhar a vida com os olhos do coração"



Essas palavras eram tão revolucionárias para mim, eu decidi não retornar, ficar cativo das coisas de um mundo tão fantástico, aprender cada lição e viver cada momento. Retornei a praia, sentei-me na areia, contemplei o continente distante da realidade, e decidi ficar ali, Calvária seria para sempre a minha morada...

 

Autor: C. J. Jacinto

Extraído de: Contos Ordinários e Extraordinários

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