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quarta-feira, 15 de julho de 2026

O Tear de Névoas

 O Tear de Névoas




C. J. Jacinto




Dois pequenos reinos existiam ao sul do meridional norte, eram opostos em valores, o primeiro chamava-se pradator e era um pequeno campo com alguns prados e um rio , chamado Pisio, que irrigava todos os seus contornos. O rio serpenteava todo o Reino e então mergulhava para o profundo da terra, assim surgia e assim terminava seu curso sobre Pradator. O reino era cheio de flores, videiras, macieiras, cerejeiras, castanheiras, e seu rei, um homem cheio de virtudes. O outro reino é um território pantanoso, cheio de árvores mortas, um lugar onde as Névoas repousam como se fossem lápides de sombras. Ali também um rei reinava , um homem cheio de orgulho, inveja e ódio. Aliás basta que um homem transborde em orgulho para que as sementes de todas as outras malícias cresçam dentro do coração. Os dois reinos eram singulares, não haviam súditos, os reis eram solitários, viviam numa solidão mas no caso do rei de Pradator, ele cultivava o campo, assistia o comércio das borboletas e abelhas, transportando pólen, as formigas carregando pedaços de folhas, havia a colheita de amoras silvestres, as uvas e a fabricação do vinho no lagar e o por do sol seguida da noite cuja escuridão, empurrava as estrelas para trás dos prados enquanto os pirilampos passeavam pra lá e pra cá.
O rei dos pântanos, vivia escondido nas sombras e nas Névoas,  aquele lugar parecia ser o jazigo de uma noite eterna. O contraste dos dois mundos, tão perto e tão distantes,  e cada rei satisfeito no seu reino. A apreciação do mundo exterior é antes um reflexo da vida interior. Mas um dia, surgiu os tentáculos da inveja no coração do rei dos pântanos, sua revolta se deu ao subir em uma das árvores mortas e ver os prados floridos e as florestas de castanheiras , ipês amarelos e as videiras que revestiam algumas pequenas colinas de Pradator.


Ele armou-se com sua lança de ossos e revestiu-de sua armadura rústica de couros. Seu intento era invadir e matar o rei de Pradator para tomar posse de tudo e anexar ao seu pântano. A notícia porém chegou aos ouvidos do Rei de Pradator que ouviu os pensamentos que o coração do rei do pântano dizia  E, se preparou, tomou sua lança de prata, vestiu a sua armadura de bronze e calçou seus sapatos de cobre. Os pássaros cantavam tristezas, nuvens escuras começaram a cobrir o céu azul de Pradator, as abelhas e as borboletas se esconderam, as flores tomaram seus perfumes e as árvores frutíferas esconderam seus frutos. Tudo parecia se retrair perante a presença sombria das intenções do rei do pântano. Um coração que se escurece pela inveja torna-se uma alma miserável, e assim o conflito era iminente e inevitável.
Os dois reis se encontraram no vale de Arkon, território de Pradator, o rei do pântano era o invasor e o outro o defensor. Infringiram ambos, ataques, mas o rei de Pradator perdeu sua lança de prata, o que segundo a lei dos nobres, era o perdedor, perder as armas era considerado como perder a própria vida, da mesma forma como entendemos hoje que perder o ânimo de viver e perder a gratidão pela existência.
O rei de Pradator então saiu cabisbaixo da batalha, entregou o reino ao vencedor e desceu para o abismo dos mares. Solitária alma no fundo de um oceano de prantos, ali estava o rei derrotado, porquanto o vitorioso com sua lança de ossos fere os carvalhos e as videiras, as abelhas e as flores choram, as estrelas se escondem por trás dos prados, as borboletas se refugiam nas penhas,  a terra sangra sofrimento é o fim do mundo  .
O rei do pantano toma um pergaminho, e vai narrar sua vitória, absurdo obsoleto que os inimigos dos fatos escrevam a história, a vitória é apócrifa quando a maldade deseja descrever sua luta insólita contra a bondade.
Acaso podem as trevas dominar a luz? As demandas da vida real ensinam que elas subsistem na ausência dela. Pradator sofreria uma metamorfose inversa, da matriz de todas as estações se transformaria em um pântano sombrio? Aos olhos de quem não contempla as flores toda a sombra parece uma obra de arte, e se a luz revela a alma da beleza, a escuridão apenas esconde todas as suas formas. Só uma alma doente pode deleitar-se com a mentira, pois o homem bom sempre sofrerá quando ela reina sobre os outros homens. O rei de Pradator precisa reagir,  e frente a carcaça de um navio que jaz na inércia de um naufrágio súbito,  como uma estrela do mar, quer seguir rente a praia, e como o sol, quer punir a madrugada fria com a luz possante do amanhecer, a aurora e a ressurreição de uma tarde que dormiu no túmulo da noite.
É preciso ter coragem, pois em dias tenebrosos a coragem é a virtude que abre o caminho da esperança, a coragem é uma grande virtude que não cabe em corações mesquinhos. O rei de Pradator reage ante a situação, entra no seu reino devastado, encontra a sua lança de prata jogada no lamaçal das lágrimas das nuvens. Ele toma a lança, procura o seu inimigo, e ao encontrá-lo grita em desafio , pois vai confrontar novamente o rei das trevas. O rei do pântano se surpreende pela coragem do retorno do seu adversário, e com uma risada sarcástica avança furioso contra o rei de Pradator. Porém a luta tornou-se acirrada, e finalmente o rei do pântano recebeu um golpe fatal, sua lança caiu longe, o rei vitorioso correu até o artefato de ossos, e tomando uma espada, despedaçou-a completamente, o rei do pântano soltou um grito agonizante, correu para o seu trono e afundou na lama fétida do seu obscuro reino lamacento.
 Répteis e bichos peçonhentos imergiram na lama com ele, naufrágio de todas as maledicências, mergulho de todos os assombroso.
O pantano começou a secar-se, pássaros de Pradator começaram a  levar sementes ao solo ressequido do reino morto, beija flores molhavam suas asas no rio Pisio e iam até lá para baterem suas asas molhadas e irrigar a terra seca do jazigo das lamas ressecadas, e o deserto floresceu, o Rei de Pradator anexou todas as terras conquistadas ao seu reino, as borboletas saíram de seus esconderijos, a vida voltou ao normal, a luz triunfou sobre as trevas, a beleza sobre a feiúra, a verdade sobre a mentira.
Até hoje, Pradator é um reino de força , crianças vieram para habitar no reino bem aventurado, Pradator tornou-se uma referência na importação de virtudes como coragem e resiliência, e através da magnífica história do seu reino, cabe aos historiadores falarem sobre o poder do amor sobre a inveja, e da humildade sobre o orgulho.

domingo, 21 de junho de 2026

O Reino da Áurea Luz

 

 

C. J. Jacinto

 

 

O sol se despede, e subitamente, o vento anuncia a chegada da noite. Com ela, surge a ausência, acompanhada de apreensão e temor. Em suas mãos, ela carrega um livro intitulado "Livro de Mistérios", repleto de enigmas que a razão humana não consegue desvendar: a própria existência.  Observamos, então, a casa fechada, morada da ausência. Antes habitada por seres e agora abandonada, a ausência ali se estabeleceu, tomando posse do espaço. E, como se não bastasse, ela se multiplica, ramificando-se em inúmeras outras ausências.

 Assim, podemos contemplar o passado, povoado por figuras e criaturas que não mais existem. Esses são os mistérios contidos no livro que ela porta, um livro lacrado, inacessível. É algo completamente indecifrável, que contém todas as perguntas sem resposta, e nos perdemos nesse turbilhão de páginas intocáveis, que não podem ser rasgadas nem lidas. Avanço pela noite serena, imperturbável. As ruas silenciosas se estendem sob a tênue iluminação dos postes, enquanto as folhas, suspensas nos galhos das árvores, dançam suavemente ao sabor da brisa noturna. Essa brisa, embora percorra todo o espaço, não consegue alterar a posição das estrelas no céu. Perdido em pensamentos solitários, sinto-me também uma ausência.

 Ausente da companhia dos amigos mais queridos, distante daqueles que amo, encontro-me só, incorporando em mim a própria sensação da ausência, que se espalha ao meu redor como um manto. Observo o mundo ao meu redor, buscando transcender as inquietudes que me afligem. A alma oprimida, sinto um peso interior que me impede de compreender os mistérios da vida.


 Necessito de algo além da reflexão filosófica, almejo um mundo mais profundo e vasto, que me conduza a momentos de transcendência. Desejo contemplar, para além da existência terrena, a esperança de um futuro onde meus sonhos possam renascer.

 Emito um clamor, um grito provocado pelo meu próprio medo, na esperança de que a ausência se manifestasse. Contudo, a ausência persiste, como se não existisse. Apesar disso, eu a vejo, a percebo, sinto sua presença. Alguns poderiam questionar minha sanidade, mas asseguro que não estou enlouquecendo. Talvez este seja um momento de revelação, que me permite enxergar o que a maioria não consegue. A ausência, por sua vez, me observa, permanecendo ao meu lado. É como se estivesse unida à minha sombra, arrastando-se pelo caminho, na tentativa de me persuadir a acreditar que possui uma sabedoria superior à minha.

 Ao refletir sobre o passado e o futuro, e observando o presente, percebo apenas a extensão da estrada que sustenta meus passos. A cada avanço, a ausência se manifesta, rondando-me. O tempo, na tentativa de dissipá-la, provoca em mim um clamor repetido: "Afaste-se, não a quero". Contudo, ela se associa à solidão, estabelecendo com ela uma forte ligação, e assim se instala em mim, como parte intrínseca do meu ser, como meu destino, como a própria jornada que percorro.

 No trajeto, observo uma pequena flor e também um arbusto de vassoura. Há outros elementos, como pedras e blocos, que compõem o pavimento desta terra batida, por onde tantos caminharam que suas pegadas se apagaram. Recordo-me de cada um, e contudo, a ausência delineia cada rosto, cada perfil daqueles que, durante tantos anos, cruzaram este caminho e agora não mais o fazem. Permanece, porém, uma marca, invisível, como se a própria ausência a revelasse a mim. Toda aquela multidão, que passou gritando, cantando, chorando, agora repousa em silêncio. Um silêncio sepulcral. Fazem parte da história.

 A questão central que me impulsiona é a busca por compreensão. Anseio por explorar o desconhecido, por desvendar os mistérios que me escapam, aqueles que residem, hermeticamente selados, no cofre de minha própria existência. Almejo abrir essa arca, para que, como astros aprisionados, a luz do entendimento se liberte, iluminando a clareza de que todos os enigmas da vida podem ser decifrados.


Contudo, a ausência detém esse conhecimento, essa posse. Ela se manifesta, retira-se, e, subitamente, me vejo em meio ao vazio. Então, a solidão e a ausência desaparecem. Ela partiu, pois a presença agora me envolve. A oportunidade de elucidar a personificação de todas as ausências se esvaiu. Em meu interior, observo a vastidão da multidão.  Ao contemplar o horizonte infinito, meus olhos se perdem na imensidão marítima. Sinto, em meu íntimo, a vastidão que impulsiona minha alma e meu coração, transparente como a água. Entre as lembranças, enumero cada saudade, como estrelas fulgurantes a adornar o oceano. Galáxias ocultas em minha imaginação revelam a essência da tristeza e da alegria, a fusão do frio e do calor, da beleza e do mistério. Em mim e fora de mim, reside a graça, a vida e a contemplação. Ao longo da praia, contemplo as luminárias que acendem a chama da emoção em meu peito, preenchendo-me de expectativa. Sinto-me feliz, completamente presente, vivenciando um instante em que me aprofundo na essência do meu ser. As estrelas, tanto no céu quanto na terra, revelam uma união cósmica que supera minha compreensão, mas que, mesmo assim, inunda meu coração de alegria. Uma paz profunda reside em mim, e dela emerge uma sabedoria que impulsiona meu coração e mobiliza minha alma. É um movimento da alma, uma jornada interior, a própria pulsação da vida. Contemplo as estrelas-do-mar. Repousam na areia, como joias sob o céu, e parecem contemplar as alturas. Seu olhar se eleva, atravessa as nuvens e se perde nas constelações celestes. E eu, posicionado entre a terra e o céu, observo e contemplo. Absorto, extasiado, maravilhado, pois um espetáculo se revela diante de mim. O espetáculo da vida, o espetáculo da existência em sua plenitude. A vida é um mistério. E esse mistério só pode ser desvendado através da experiência. É um mistério que se desvenda com o amor. O amor é a contemplação. Pois cada momento, cada instante, se transforma em uma narrativa. Se transforma em minha narrativa. Se transforma em nossa narrativa.  A bioluminescência dos corpos celestes, como vaga-lumes soltos e estrelas cadentes, assemelha-se a sóis que orbitam em torno dos meus sonhos. Sinto-me tomado por uma profunda alegria. Em meu interior, emerge a noção do ser, como nuvens translúcidas que conduzem a uma viagem transcendental, levando a chuva que fertiliza os campos. A névoa e o orvalho da noite, com seu frescor, envolvem-me, como diamantes lapidados pela rotação da Terra e pela movimentação das águas. Deleito-me neste instante, na transcendência da minha própria visão, na contemplação. Este processo assemelha-se à Lua que orbita a Terra, a um universo em constante movimento, que transcende o infinito e ultrapassa todas as possibilidades. É um milagre. A vida é um milagre. E as borboletas perenes, elas se foram, levadas pelo vento do Norte, enquanto as estrelas cintilam incessantemente. Essa luz dança sobre meus olhos, em uma sinfonia silenciosa, perceptível apenas ao espírito mais sensível, que a pode sentir e ouvir. Por meio dessa sinfonia, tudo se move: as ondas na praia, as folhas das palmeiras, as flores da laranjeira, as rosas perfumadas, a brisa marinha e o aroma característico da terra seca que recebe a chuva tardia, tudo se reconstitui em um sistema, aberto para que possamos compreender. Compreender, decifrar todos os enigmas e conferir sentido à vida. Ao norte, a estrela radiante, guia dos peregrinos e referência dos viajantes, onde as embarcações enfrentam as tempestades. E eu aqui, com os pés livres na areia, cada grão um universo, cada estrela refletida na areia, um símbolo de inocência e esperança. Procuro decifrar cada enigma, cada código desses mistérios que se espalham pela imensidão arenosa até o horizonte infinito. Estrela após estrela, constelações náuticas, em repouso silencioso sobre os grãos da areia. Tudo se aquieta, mas o silêncio é rompido pelo movimento das águas, águas transparentes, águas esverdeadas, como se todas as turquesas, pérolas e diamantes tivessem sido desfeitos e fundidos em um mar cristalino, onde minha alma navega e minha imaginação mergulha.
Eis a cena da coesão, o instante do equilíbrio. Estrelas que, abraçando a areia da praia, encontram sua firmeza. Ondas que se agitam sobre as dunas, sem jamais alcançar as montanhas. Águas que colidem contra as rochas, mas não as conseguem fragmentar. Da mesma forma, nosso espírito, ao contemplar a beleza da natureza, do céu, do mar e das estrelas-do-mar, torna-se inabalável, enraizado. Desse modo, podemos sorver de um oceano ainda mais profundo do que o que se apresenta aos olhos. Um outro oceano. Um oceano que transcende nossa capacidade de percepção física, um oceano espiritual. Ali reside um trono, o trono da sustentação, da manutenção de todo o cosmos, de todo o universo. E ali se assenta Aquele que está à direita da majestade nas alturas, envolto em seu manto, o manto da glória, da luz e da vida. Dele emanam, em profusão, a bondade, a beleza e a verdade, preenchendo abundantemente nossas vidas.

 

Borboletas e Jardins


 


É possível que o prezado leitor desconheça as borboletas sinfônicas, um fenômeno inédito no âmbito da ciência e da natureza. Esta é uma história tocante sobre a descoberta de espécies de borboletas que habitam os desertos metafóricos da existência humana. Um vento forte e tempestuoso, acompanhado de nuvens escuras, afastou da floresta uma pequena borboleta de asas coloridas. Apesar de seus esforços para escapar, a jornada foi inevitável. Arrastada pela força dos ventos, a borboleta foi levada ao deserto. Ali, em meio à vastidão de areias douradas, que lembravam os reflexos de um palácio de ouro, e pequenas partículas cristalinas que se acumulavam em dunas rumo ao horizonte, estendia-se um deserto de proporções inimagináveis, impossível de mensurar. Um deserto sem flores.

 Alguém poderia questionar: o que motiva uma borboleta a se afastar de seu habitat natural, a se encontrar distante da primavera, em um deserto onde a vista alcança apenas grãos de areia, dunas, o céu de um azul intenso, o sol inclemente e o silêncio, este último, por vezes, rompido pelo vento, um vento aparentemente sutil, mas imperceptível. Contudo, é essa força, construída de ínfimas partículas, que consegue mover as dunas, uma força que se manifesta na aparente fragilidade. Assim, a borboleta persiste ali, desafiando as adversidades, lutando contra um ambiente hostil. O que se pode esperar de sua presença em tal cenário?
 Poderíamos, ainda, especular sobre a fonte de alimento da borboleta, visto que não havia cascas de frutas, pólen ou seiva de árvores no local. Tudo era circundado por areia, e somente areia. Portanto, devemos considerar como a criatura poderia sobreviver. Consideremos então a hipótese de que essa borboleta se nutria exclusivamente do orvalho, aquele que se formava a cada alvorecer, umidificando a terra árida do deserto. Desse orvalho ela se alimentava, sorvendo um néctar divino que a fortalecia para realizar algo extraordinário. Jamais testemunhamos algo semelhante: uma borboleta entoando um canto.

 Contudo, o aspecto mais notável residia no fato de que esta borboleta, singular em sua espécie, emitia um canto. Este canto ecoava enquanto o vento soprava, o vento inclemente do deserto. A despeito da delicadeza inerente às borboletas, o vento, que aos nossos sentidos se manifesta como brisa, a elas se apresenta com a força de uma tempestade. E, assim, ela enfrentava, com suas asas, com suas asas frágeis, a fúria da natureza. A cada toque do vento em suas asas, uma sinfonia emanava, espalhando-se por toda a vastidão desértica.

 A borboleta celebrava o amor, grandeza indizível. Era uma sinfonia ouvida à distância, onde a beleza da música se manifestava no movimento das asas, enfrentando a fúria do vento, o sopro do deserto e da solidão. Essa sinfonia quebrava, paradoxalmente, a rotina do lugar com a fragilidade da borboleta perdida. O som ecoava por todos os lados, de modo que as estrelas, em seu brilho noturno, também dançavam, tocadas pela magnificência da melodia.
 Diante da cena, as palavras faltavam, restando apenas a beleza. Uma beleza audível, uma beleza radiante, que não se manifestava aos olhos, mas à alma. Era uma luz, porém não daquelas que os olhos humanos podem contemplar, mas sim uma luz percebida pelos olhos do coração. Um vislumbre de magnificência, uma plenitude musical que preenchia o ser, transformando a esterilidade do deserto em vida pulsante. Um esplendor inexplicável, que revelava o significado intrínseco de todas as coisas. A fragilidade de um ser emanava a plenitude de sentido para a existência, e o deserto, então, se inundava de música, uma melodia profunda. Tão profunda que a alma era capaz de alcançar as profundezas do amor e dos sentimentos mais sublimes.   Ao serem contemplados, os olhos, como diamantes, despertavam emoções profundas, permitindo a lapidação da sensibilidade. Era algo singular, inteiramente concebido pela arte do canto, uma expressão que transcendia a compreensão comum. Contudo, em cada entoação, residia um significado, um propósito para a vida e para a existência.
 Observamos como a força pode emergir da fraqueza, e a beleza, da fragilidade. O ar, em seu movimento sutil, desafia o tempo, em uma dança contínua, na delicadeza da existência, naquilo que parece ser a sua menor resistência. Uma borboleta, um inseto outrora restrito à forma larval, agora atravessa o deserto, lutando contra o vento, enfrentando as tempestades, superando adversidades. Ali, persevera, batendo suas asas, em uma busca por entregar sua melodia. Uma melodia para o deserto, uma melodia para o mundo, uma melodia para esta narrativa. Nesse contexto, a borboleta persiste na luta contra o vento, mesmo sem conseguir avançar. Bate suas asas até a exaustão, e quando as forças a abandonam, é levada pelo vento. O vento a conduz até sua própria fadiga, e então a borboleta pousa sobre uma duna de areia, confundida pelos viajantes com uma flor do deserto.

 

C. J. Jacinto

 

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

O Infinito Indecifrável

 


Em um oceano distante, erguia-se uma ilha habitada por homens dedicados à observação estelar. Ao longo de suas vidas, o ciclo existencial desses indivíduos se manifestava na contagem das estrelas, em cada estação do ano, durante as horas noturnas. A observação celeste constituía o propósito de suas vidas, o foco central de suas atividades. Diariamente, dedicavam-se a identificar e registrar as estrelas do hemisfério Sul e do hemisfério Norte. Repousavam durante o dia e, em vigília constante, dedicavam cada noite à minuciosa contagem dos astros. Diariamente, do crepúsculo à aurora, quando as aves silenciavam e, em seguida, despertavam, seus cantos melodiosos ressoavam tanto ao findar quanto ao iniciar do dia, proporcionando um espetáculo único. Este deleitava os observadores, inspirando-os profundamente. Em meio à escuridão, muitos encontravam na poesia sua voz. Naquela ilha, todos os habitantes dedicavam-se a um único propósito: a contagem de estrelas. Durante séculos, essa atividade perdurou, até que um indivíduo, movido pelo desejo de superar os demais na contagem estelar, concebeu um instrumento óptico – a luneta.  Ele ascendeu a um monte elevado e, utilizando a luneta, passou a observar as estrelas que, de outra forma, permaneceriam invisíveis a olho nu. Distinguiu-se, então, por sua capacidade de catalogar um número superior de astros. Em reconhecimento a esse conhecimento, foi elevado ao posto de rei, governante da ilha, pois o homem que detivesse maior conhecimento sobre as estrelas, e, consequentemente, o seu número, era considerado o mais sábio.

 A lei da existência pode ser compreendida, em certa medida, por aqueles que possuem a capacidade de discernimento aguçado, transcendendo a percepção superficial da realidade. Ao vislumbrar além do tangível, atingem-se esferas de conhecimento mais profundas e complexas, que escapam à compreensão imediata. Essa habilidade de apreensão, alicerçada na sabedoria, confere uma perspectiva abrangente, permitindo antever nuances e implicações ocultas à maioria. A visão, nesse contexto, manifesta-se como a faculdade de discernir a direção a ser seguida, orientando as escolhas e revelando aspectos da realidade que a sabedoria, em sua essência, pode elucidar. Durante muitos anos, aquele homem apreciava ascender ao cume da montanha para observar as estrelas, aprimorando-se constantemente. Ele desenvolvia lentes cada vez mais potentes, ampliando sua capacidade de observação. A perspectiva daqueles que permaneciam no vale, por outro lado, mantinha-se limitada, como se estivesse estagnada no tempo. Não se observava retrocesso, mas também não se vislumbrava progresso. Contudo, o mais notável era a satisfação que sentiam, contentando-se em contemplar as mesmas estrelas noite após noite. Dentro daquele grupo, porém, havia quem aspirasse ao conhecimento astronômico, buscando a evolução e o progresso. Este indivíduo, impulsionado pela ambição, alcançou um conhecimento superior àqueles que se recusaram a superar suas limitações.

 A conformidade, ao restringir a expressão individual, pode limitar a capacidade de desenvolvimento pessoal. Se negligenciarmos a possibilidade de progredir e superar nossos próprios limites, corremos o risco de permanecer estagnados. Nessa condição, enquanto outros avançam e se superam, distanciam-se de nós. Assim, a adesão a um estado de conformidade frequentemente se traduz em um retrocesso.
 Em razão disso, o homem, detentor de um sistema de contabilidade avançado e de um conhecimento profundo sobre astros situados a distâncias incomensuráveis, que jamais poderiam ser observados a olho nu, dedicava-se a observá-los, catalogá-los e mensurá-los. Essa prática gerou no povo da ilha uma inveja que o levou ao ódio. Contudo, alguns poucos, notáveis por sua sabedoria e sensatez, admiravam a vastidão do conhecimento astronômico do homem, que parecia transcender sua época. Embora pudesse ser considerado um indivíduo excêntrico, à frente de seu tempo e alheio às limitações geográficas, ele era respeitado por uma minoria por sua postura, seu saber, sua inteligência, sua audácia, sua criatividade e sua capacidade de superação. Observando as estrelas e dedicando-se à construção de instrumentos cada vez mais sofisticados para contá-las, o homem, ao escalar a montanha diariamente, transcendia os limites de sua própria imaginação. Essa busca, notável e extraordinária, proporcionava-lhe não apenas uma visão ampliada do cosmos, mas também uma perspectiva singular da ilha, abrangendo toda a sua extensão, desde o norte ao sul, e revelando suas praias em toda a sua beleza.  Feliz é o homem que observa os fundamentos da criação, que explora seu interior e sua imaginação, e que percebe a beleza que transcende a visão. Ele, guiado pela sabedoria do coração, percorre a interioridade, onde a maravilha exterior se reflete e se preserva. Assim, torna-se um homem sábio, cuja alma resplandece como a lua, emergindo radiante após as noites sombrias, por entre as mais altas montanhas.
Naquele dia, todos os homens que habitavam o vale, onde seus ancestrais, por gerações, se contentaram em contemplar apenas as estrelas visíveis a olho nu, reuniram-se. Ascenderam ao cume da montanha e questionaram o homem sábio e notável, solicitando que lhes transmitisse os conhecimentos necessários para a construção de lunetas e instrumentos de observação estelar. O homem, movido pela compaixão, concedeu-lhes as instruções, permitindo que também construíssem seus instrumentos e, assim, pudessem catalogar um número maior de estrelas e transcender os limites da observação noturna. Após dominar a técnica de produção de artefatos, aquelas pessoas desenvolveram a capacidade de observar as estrelas distantes. Em consequência, alcançaram um estado de sabedoria. Abandonaram as planícies e passaram a residir nas montanhas. As cidades, agora elevadas, foram construídas sobre os cumes mais altos da ilha. Do alto das montanhas, as cidades resplandeciam, suas luzes intensas irradiando claridade sobre todo o vale, de modo que, enquanto o sol iluminava a ilha durante o dia, à noite o vale era banhado pela luz das cidades situadas nos altos montes. A sabedoria se disseminou, e aquele homem notável, outrora o único a dominar o conhecimento estelar, certa vez, com seu instrumento, observou a areia da praia da ilha. Ali, naquele substrato, ele notou elementos que se assemelhavam a estrelas, aprisionados. Então, dirigindo-se aos que o acompanhavam, ele declarou: "Permaneçam aqui, dedicando-se ao estudo dos astros. Aperfeiçoem seus instrumentos, tornando-os cada vez mais precisos na busca por estrelas distantes. Eu, por outro lado, irei à praia." Dessa forma, todos aqueles homens aprimoraram a arte da observação estelar, redescobrindo constelações antes imperceptíveis ao olhar comum, tornando-se exímios astrônomos. Em seguida, o homem singular desceu, pois, do alto de sua observação, através de seu instrumento, vislumbrou inúmeras estrelas, como que precipitadas, imersas na areia da praia. Ele desceu, então, para catalogá-las. Apesar da fraqueza nas pernas e do tremor nas mãos, o homem ajoelhou-se e iniciou a tarefa de resgatar as estrelas do mar, arremessando-as de volta às águas, uma a uma. Nesse momento, porém, sua respiração se interrompeu. Ali, a vida terrena para ele se dissolveu na areia, entre as estrelas caídas e a carne de um homem, a carne de um homem envelhecido que, durante toda a existência, contemplou as estrelas do céu e, no derradeiro instante, contava as estrelas do mar.
Os homens que estavam no alto da montanha desceram, tomados pela dor, e recolheram o corpo do sábio. Prantearam à beira-mar, onde encontraram um vaso contendo uma pequena árvore. Depositaram o corpo do sábio sobre o vaso e o entregaram às ondas impetuosas do mar, que o conduziram para o infinito.


C. J. Jacinto

domingo, 5 de outubro de 2025

O Vale da Escuridão

O Vale da Escuridão

 C. J. Jacinto

Entre este planeta habitado por seres mortais, estendia-se um vale profundo e sombrio, onde a escuridão imperava constante. A noite, em sua essência, trazia consigo a obscuridade. Contudo, mesmo durante o dia, densas nuvens negras pairavam sobre o vale, impedindo a passagem da luz solar. A escuridão dominava aquele lugar. Ali residia um homem, juntamente com muitos outros, consumidos pelo desânimo, tanto de dia quanto de noite, sobrecarregados por um fardo. A tristeza, alojada em seus corações, emergia com a noite, trazendo consigo a nostalgia e a amargura, sentimentos familiares àqueles que jamais contemplavam a claridade do sol.

 Naquele lugar, a identidade visual de cada indivíduo permanecia oculta, restando apenas o eco de suas emoções: o pranto e a lamentação. O olhar, direcionado ao céu, deparava-se unicamente com a profusão de nuvens que, ao longo do dia, dominavam a paisagem e, à noite, obscureciam o brilho das estrelas. Tal era a condição dos que ali habitavam, imersos em uma atmosfera de profunda escuridão.

 Certa vez, todos os homens se reuniram e expressaram a necessidade de uma ação. Afirmaram que a situação em que viviam era insustentável, uma condição adversa e complexa, que lhes impedia de se reconhecerem e de reconhecerem uns aos outros. A impossibilidade de contemplar seus próprios rostos, de observar seus reflexos, resultava em uma profunda ignorância de si mesmos e do próximo. Lamentavam a dificuldade de vivenciar a alegria do nascimento, a beleza de suas companheiras e a imagem angelical de seus filhos. Diante dessa realidade, consideraram urgente a busca por uma solução.
 Contudo, uma geração sucedia a outra, e as ações concretas permaneciam inalteradas. Realizavam-se encontros em diversos locais, expressando-se pesar pela situação. Cada indivíduo, porém, parecia caminhar com sua esperança extinta, como se carregasse um peso, um fardo inútil desde o nascimento até a morte.
 A tristeza pairava densa sobre todos aqueles aspectos, evocando uma profunda nostalgia e melancolia que se estendia por aquelas terras, vales e montanhas, atingindo as cidades fúteis. Desses lugares, do alto de um monte, nenhuma luz sequer podia ser avistada. Era um ambiente de trevas e desolação, que, a quem ali permanecesse, infligia uma profunda agonia, uma angústia na alma, impedindo a autocompreensão e a empatia. Imaginem rosas a desabrochar, murchar e morrer sem que seus habitantes conseguissem discernir as cores de uma rosa amarela e uma vermelha. Tal era a condição daqueles que, embora lamentassem e clamassem por ação, permaneciam indiferentes, até mesmo procrastinando a transformação radical que seu ambiente demandava.
 Contudo, cumpre ressaltar um detalhe singular: uma nuvem, a única nuvem que anualmente se detinha sobre o cume da montanha mais alta da região. Durante sua permanência diurna, mesmo em meio à escuridão, manifestava-se um clarão, um reflexo, uma luz intensa que durava apenas alguns segundos, talvez menos. Nesse breve instante, uma luz fugaz irradiava-se, tão efêmera que impedia a identificação precisa dos rostos daqueles que, do alto da montanha, testemunhavam o fenômeno.
 Uma criança teve uma ideia. Ela dirigiu-se ao pai e disse: "Pai, poderia me emprestar sua lâmpada? Preciso muito dela." O pai, curioso, perguntou: "Para que necessitas de uma lâmpada? Uma lâmpada comum, que não te iluminará em nada, pois não fará mais do que ser segurada em tuas mãos." O filho respondeu: "Irei à encosta da montanha, e esperarei as nuvens. Quando uma nuvem, por um breve instante, liberar dois ou três raios, tomarei uma direção, e a encosta me guiará para cima. Lá esperarei por um ano, até que ela retorne, para que eu possa trazer de volta, para todos nós, a esperança."

 Assim sucedeu. O pai entregou à criança sua lâmpada. A criança, então, apanhou um alforje com muitos pães e muita água, e ascendeu com dificuldade a montanha. Contava os dias para que, no momento da ascensão, estivesse próxima da nuvem que anualmente presenteava o vale com, ao menos, breves relâmpagos de luz, ainda que tênues, a fim de testemunhar a esperança. Pois essa era a missão da nuvem: comunicar aos homens daquele lugar que a esperança existia.


 Faltando poucos dias para que a jovem se aproximasse novamente, o pai da criança providenciou-lhe uma alforje com pão e um cantil com água. O menino, sem hesitar, iniciou a subida, avançando lentamente. Sabia que levaria alguns dias para atingir o cume e mais alguns dias para retornar. Os cálculos foram feitos para que chegasse ao topo com antecedência, a fim de observar a chegada da nuvem. Ao alcançar o cume, comeu pão, bebeu água e, próximo à sua lamparina, aguardou a chegada da nuvem. Ali, conceberia uma grande ideia.

 Ele almejava capturar um raio, daqueles clarões provenientes das nuvens. Imaginava que, ao fazê-lo, poderia distribuí-lo e direcioná-lo à terra. Antecipando a aproximação da nuvem, percebeu seu deslocamento sobre o cume. Empunhou sua lâmpada e lançou-a ao ar, pois os anciãos afirmavam que, se uma lâmpada de metal fosse polida até o brilho de um espelho, atrairia raios. Observando o movimento da nuvem, posicionou a lâmpada sobre uma pedra, a uma curta distância. Quando os primeiros relâmpagos irromperam, um deles atingiu a lâmpada. Esta, repleta de óleo, acendeu-se. O jovem, segurando a lâmpada flamejante, contemplou a paisagem e percebeu que o cume da montanha estava adornado por inúmeras flores.

 Ao descer por uma trilha que se revelava sob a intensa claridade, ele se aproximava. A multidão, reunida abaixo, observava o menino que portava uma lâmpada. Uma pequena luz, emanada do cume da montanha, descia lentamente, e o povo regozijava-se com a presença do jovem que agora caminhava com a lâmpada acesa. Ao alcançar a planície, a grande multidão formou uma fila. Então, um a um, o menino começou a transferir o fogo de sua lâmpada para as outras. Cada pessoa recebeu uma centelha, e assim, cada lâmpada foi acendendo, transformando-se em uma imensa fonte de luz. Em pouco tempo, milhares e milhares de pessoas portavam lâmpadas acesas. Com a iluminação, o vale inteiro foi transformado. Agora, cada indivíduo podia contemplar o rosto do outro. As nuvens escuras, temendo a vasta quantidade de luz, começaram a se dissipar, desfazendo-se uma a uma. O céu tornou-se azul e nuvens brancas surgiram. A luz do sol também brilhou, e as pessoas, maravilhadas, contemplavam o céu, exclamando sua beleza. Outros observavam as pequenas nuvens que flutuavam, e um grande júbilo tomou conta do lugar. Agora, a luz do dia revelava as montanhas, os vales, os córregos, as árvores; tudo era visível. A magnificência da natureza se revelava. Ademais, no primeiro dia de sol, ao testemunhar o pôr do sol, a beleza do entardecer também foi contemplada. Uma cena verdadeiramente maravilhosa. Alguém tentou apagar sua lâmpada, mas o menino advertiu: "Não apagueis vossas lâmpadas, pois precisaremos delas para as noites que virão."

 Após o anoitecer, os presentes contemplaram um céu profuso em estrelas. A presença da lua, discreta e serena, colaborava para a iluminação da noite. A suavidade do ambiente era evidente, combinando a luz lunar com o brilho das lâmpadas, que aqueciam e iluminavam o local. Com a chegada da alvorada, um novo espetáculo se apresentou àqueles que ali estavam: o amanhecer. O sol, ascendendo por trás das montanhas, despertou grande alegria, pois perceberam que a vida alternava entre a beleza da noite estrelada e a luminosidade do dia ensolarado. E, assim, descobriram a possibilidade de felicidade na simples contemplação dessas maravilhas.

 

 


 

O Despertar do Paraíso

 

O Despertar do Paraíso



Em um deserto vasto, erguia-se uma imponente figueira, sob a qual um peregrino, a cada entardecer, estabelecia seu acampamento para o pernoite. Ele portava consigo um antigo volume, fonte de meditação sobre um destino singular e a incessante busca pelo sentido da existência. Todas as noites, sob o manto estrelado, acendia seu modesto candeeiro e, à sua tênue luz, dedicava-se à leitura de algumas páginas. Por longos e incontáveis anos, não houve outro livro em suas mãos senão aquele exemplar único e intensamente manuseado, cujas páginas, já amareladas, evidenciavam a passagem do tempo e a constância de sua leitura. Era este o renomado “O Deserto dos Tártaros”.

Sua existência era marcada pela solidão. Órfão desde a tenra idade, por iniciativa própria decidiu explorar os confins mais inóspitos e remotos do planeta. Dada a constante necessidade de resguardar-se, elegeu uma figueira como refúgio noturno, buscando proteção contra o orvalho gélido das noites desérticas. Sua vida era intrinsecamente dedicada à introspecção; ele refletia mais do que proferia, dada a ausência de interlocutores para compartilhar pensamentos ou dialogar. Sua existência, rica em valiosos tesouros interiores, alicerçava-se em uma interioridade profunda, onde albergava uma percepção ilimitada de seu próprio ser. Embora consciente da perene companhia da solidão, não se deixava abater por tal condição. Encontrava nos grãos de areia do deserto e no cintilar das estrelas celestes um peculiar lenitivo para sua solitude.


Durante muitos anos, aquele ancião, já envolto em vestes esfarrapadas, percorria as vastas extensões do deserto, ora internando-se na frondosa floresta, ora cruzando as campinas em busca de flores. Sua existência tornou-se progressivamente mais solitária, e foi nesse isolamento que ele passou a decifrar a linguagem das flores, das estrelas e das árvores. Sua comunicação com elas era tão intrínseca quanto sua própria rotina. Tratava-se de um intercâmbio que transcendia a imaginação comum, um diálogo interior profundo que emanava do cerne de seu ser. Uma linguagem acessível apenas àqueles dotados de uma sensibilidade extraordinariamente aguçada, permitindo-lhes interagir de forma que não seria percebida como insanidade pelos observadores externos

Em um dia singular, transpondo o limiar do horizonte, o peregrino adentrou uma floresta e dali ascendeu a um cume adjacente, a fim de contemplar a vastidão do vale que se estendia, a perder de vista, em distâncias que aos olhos se afiguravam infinitas. Permaneceu ali por um período, e logo nuvens incipientemente se desenharam na longínqua extensão do firmamento, no quadrante onde a Estrela Polar indica o norte. Essas nuvens, paulatina e suavemente, aproximavam-se, agrupando-se a outras, tal qual blocos de algodão, atraídas por uma força ignota. Observando a cena, o peregrino testemunhou a confluência de múltiplos cúmulos, até que o firmamento, em sua totalidade, estivesse envolvido por uma camada compacta e sombria. Dela ressoava, para além daquela cortina etérea, um estrondo longínquo, como se uma maquinaria colossal, forjada de gelo e fogo, operasse nas profundezas da abóbada celeste.


Quando as primeiras gotas de chuva principiaram a cair, banhando o campo, as árvores e as flores, ele sentiu, por uma intuição profunda, que toda a natureza – desde as flores e as árvores até a relva – se deleitava com aquelas gotas celestes que caíam sobre as copas e irrigavam o vale, as montanhas e os campos. Um regozijo palpável pairava no ar: a exultação das árvores, da relva, das flores silvestres e das que se abriam nas copas de algumas árvores.



Então, elevando o olhar para as nuvens, interpelou-as: "Ó nuvens, por que não sois conduzidas ao deserto onde habito, para que lá possais irrigar também, com vossas chuvas celestes, a vastidão arenosa, e o deserto possa vicejar em flor? Assim, poderei viver à sombra de uma figueira e contemplar, do meu refúgio, as outrora áridas campinas, para que floresçam e as sementes germinem. Que, onde me encontro, surjam prados verdejantes, repletos de flores silvestres, e o aroma inebriante de seus perfumes me envolva nas noites em que contemplo as estrelas."

 Responderam as nuvens ao peregrino: "Sim, iremos, mas antes é crucial que transmitas as nossas diretrizes ao vento. Dir-lhe-ás que deverá recolher sementes de todas as florestas e de todas as campinas, e as leve, para que repousem sobre o deserto onde habitas. Após o vento acatar as tuas ordens e transportar as sementes para o deserto onde habitas, então nós, enfim, iremos e derramaremos nossas lágrimas celestes sobre a terra seca e árida daquele ermo. Consequentemente, as sementes germinarão."
 O peregrino elevou sua voz aos ventos, aqueles que sopram do sul, os ventos impetuosos. A eles pediu: "Ó ventos, peço-vos que, ao atravessardes a floresta, recolhais inúmeras sementes, sementes que germinem sobre o deserto. Percorrei os eucaliptos, as acácias, as palmeiras, as embaúbas, os flamboyants, as acácias, os jacarandás, os anjicos, as magnólias, as cerejeiras e os pessegueiros, e disseminai as sementes. Convidai os pássaros a voarem em vossas asas, para que também eles transportem e lancem muitas sementes sobre o deserto, sobre a minha morada, sobre o refúgio da minha esperança. Que ele floresça, que eu possa habitar em meio às flores, e desfrutar dos perfumes e dos aromas dos frutos maduros."


Do alto da esfera celeste, exalou-se um sopro sutil, um véu de ar, e com ele iniciou-se o movimento dos ventos. Estes, adentrando a floresta e as planícies, recolheram em seu curso outras brisas. As aves, guiadas pelas correntes aéreas, impulsionavam em voo suas asas e bicos, carregando consigo numerosas e valiosas sementes. O vento alcançou então o deserto, o deserto que abrigava o peregrino. Inúmeras sementes foram dispersas sobre a areia e as dunas, em quantidades incontáveis. Em todas as direções, a vista abrangia a variedade de cores das sementes, provenientes de árvores e flores. Todo o deserto se viu coberto por elas. Em seguida ao sopro do vento, chegaram as nuvens. Carregadas de um peso silencioso, e sentindo sede, hauriram água em abundância do mar, e após saciarem essa necessidade, dirigiram-se ao deserto, onde iniciaram seu pranto. Despejaram ali suas lágrimas, seu suor, suas águas, em um fluxo torrencial, tamanha a abundância, que o deserto inteiro se encharcou, foi totalmente irrigado. O peregrino, observando, contemplava admirado este espetáculo da natureza.

 Após algumas semanas, as primeiras flores silvestres desabrocharam e as primeiras videiras se espalharam pela areia do deserto. Diversas árvores, ainda em fase inicial de crescimento, começaram a surgir, e o deserto inteiro demonstrava sinais de vida. Um evento incomum, algo magnífico, estava em curso, e o viajante observava, maravilhado, como o deserto outrora amarelo era gradualmente tomado por um mar de vegetação verdejante que se estendia até o horizonte, perdendo-se de vista.

 O tempo decorreu, e o deserto deu lugar a uma vasta floresta, exuberante de flores e frutos. Era um refúgio de alegria, um pomar de árvores frutíferas, onde o peregrino experimentou uma profunda metamorfose. Antes limitado à contemplação noturna das estrelas, escalando montanhas para melhor apreciar a vastidão celeste, ele deixou de ser um simples viajante. Agora, dedicava-se à colheita, colhendo flores e frutos em abundância.



Mais do que isso, vivia uma vida de contemplação ainda mais intensa. A floresta, antes deserto, fora transformada pela beleza das flores e pela fartura dos frutos, impulsionada pela força da natureza e pelo desejo humano. O anseio de um homem que outrora peregrinava pelo deserto, desejando a transformação do mundo, concretizou-se.

 Quando o mundo se transforma, aqueles que alimentaram o desejo por essa mudança são os primeiros a desfrutar da profunda bênção que a vida pode oferecer. Essa experiência é reservada àqueles que carregam em seus corações o profundo anseio por um progresso contínuo, visando um futuro ainda mais promissor.
 Desde então, o céu ressoava com o canto dos anjos sobre a floresta exuberante, adornada por frutos e flores. As abelhas ali construíram suas colmeias, e a floresta passou a oferecer mel em fartura. O mais notável, contudo, foi o surgimento de pessoas. Indivíduos famintos, cuja existência o peregrino desconhecia, foram atraídos pela abundância. Em busca de alimento, saciaram sua fome com os frutos generosos, e crianças também se juntaram a eles. A floresta se transformou em um santuário de vida, abrigando não só a flora e a fauna, mas também a humanidade. Homens, mulheres e crianças, impulsionados pela fome, encontraram na floresta o sustento, trocando-o pelos frutos saborosos.

Ao testemunhar essa efervescência de vida, de esperança e de satisfação, o peregrino sentiu-se imerso em um movimento que conduzia à alegria. Essa experiência tornou-se uma lição valiosa para o homem outrora solitário. Agora, cercado por outros, desfrutava da comunicação e da convivência. A solidão desaparecera em meio às flores e árvores, em meio aos campos verdejantes e floridos. Talvez tenha sido esse o principal catalisador para que o peregrino vivesse o restante de seus dias em plena felicidade, encontrando na alegria alheia a satisfação que lhe proporcionava a completa realização.

 

 

C. J. Jacinto