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domingo, 21 de junho de 2026

O Reino da Áurea Luz

 

 

C. J. Jacinto

 

 

O sol se despede, e subitamente, o vento anuncia a chegada da noite. Com ela, surge a ausência, acompanhada de apreensão e temor. Em suas mãos, ela carrega um livro intitulado "Livro de Mistérios", repleto de enigmas que a razão humana não consegue desvendar: a própria existência.  Observamos, então, a casa fechada, morada da ausência. Antes habitada por seres e agora abandonada, a ausência ali se estabeleceu, tomando posse do espaço. E, como se não bastasse, ela se multiplica, ramificando-se em inúmeras outras ausências.

 Assim, podemos contemplar o passado, povoado por figuras e criaturas que não mais existem. Esses são os mistérios contidos no livro que ela porta, um livro lacrado, inacessível. É algo completamente indecifrável, que contém todas as perguntas sem resposta, e nos perdemos nesse turbilhão de páginas intocáveis, que não podem ser rasgadas nem lidas. Avanço pela noite serena, imperturbável. As ruas silenciosas se estendem sob a tênue iluminação dos postes, enquanto as folhas, suspensas nos galhos das árvores, dançam suavemente ao sabor da brisa noturna. Essa brisa, embora percorra todo o espaço, não consegue alterar a posição das estrelas no céu. Perdido em pensamentos solitários, sinto-me também uma ausência.

 Ausente da companhia dos amigos mais queridos, distante daqueles que amo, encontro-me só, incorporando em mim a própria sensação da ausência, que se espalha ao meu redor como um manto. Observo o mundo ao meu redor, buscando transcender as inquietudes que me afligem. A alma oprimida, sinto um peso interior que me impede de compreender os mistérios da vida.


 Necessito de algo além da reflexão filosófica, almejo um mundo mais profundo e vasto, que me conduza a momentos de transcendência. Desejo contemplar, para além da existência terrena, a esperança de um futuro onde meus sonhos possam renascer.

 Emito um clamor, um grito provocado pelo meu próprio medo, na esperança de que a ausência se manifestasse. Contudo, a ausência persiste, como se não existisse. Apesar disso, eu a vejo, a percebo, sinto sua presença. Alguns poderiam questionar minha sanidade, mas asseguro que não estou enlouquecendo. Talvez este seja um momento de revelação, que me permite enxergar o que a maioria não consegue. A ausência, por sua vez, me observa, permanecendo ao meu lado. É como se estivesse unida à minha sombra, arrastando-se pelo caminho, na tentativa de me persuadir a acreditar que possui uma sabedoria superior à minha.

 Ao refletir sobre o passado e o futuro, e observando o presente, percebo apenas a extensão da estrada que sustenta meus passos. A cada avanço, a ausência se manifesta, rondando-me. O tempo, na tentativa de dissipá-la, provoca em mim um clamor repetido: "Afaste-se, não a quero". Contudo, ela se associa à solidão, estabelecendo com ela uma forte ligação, e assim se instala em mim, como parte intrínseca do meu ser, como meu destino, como a própria jornada que percorro.

 No trajeto, observo uma pequena flor e também um arbusto de vassoura. Há outros elementos, como pedras e blocos, que compõem o pavimento desta terra batida, por onde tantos caminharam que suas pegadas se apagaram. Recordo-me de cada um, e contudo, a ausência delineia cada rosto, cada perfil daqueles que, durante tantos anos, cruzaram este caminho e agora não mais o fazem. Permanece, porém, uma marca, invisível, como se a própria ausência a revelasse a mim. Toda aquela multidão, que passou gritando, cantando, chorando, agora repousa em silêncio. Um silêncio sepulcral. Fazem parte da história.

 A questão central que me impulsiona é a busca por compreensão. Anseio por explorar o desconhecido, por desvendar os mistérios que me escapam, aqueles que residem, hermeticamente selados, no cofre de minha própria existência. Almejo abrir essa arca, para que, como astros aprisionados, a luz do entendimento se liberte, iluminando a clareza de que todos os enigmas da vida podem ser decifrados.


Contudo, a ausência detém esse conhecimento, essa posse. Ela se manifesta, retira-se, e, subitamente, me vejo em meio ao vazio. Então, a solidão e a ausência desaparecem. Ela partiu, pois a presença agora me envolve. A oportunidade de elucidar a personificação de todas as ausências se esvaiu. Em meu interior, observo a vastidão da multidão.  Ao contemplar o horizonte infinito, meus olhos se perdem na imensidão marítima. Sinto, em meu íntimo, a vastidão que impulsiona minha alma e meu coração, transparente como a água. Entre as lembranças, enumero cada saudade, como estrelas fulgurantes a adornar o oceano. Galáxias ocultas em minha imaginação revelam a essência da tristeza e da alegria, a fusão do frio e do calor, da beleza e do mistério. Em mim e fora de mim, reside a graça, a vida e a contemplação. Ao longo da praia, contemplo as luminárias que acendem a chama da emoção em meu peito, preenchendo-me de expectativa. Sinto-me feliz, completamente presente, vivenciando um instante em que me aprofundo na essência do meu ser. As estrelas, tanto no céu quanto na terra, revelam uma união cósmica que supera minha compreensão, mas que, mesmo assim, inunda meu coração de alegria. Uma paz profunda reside em mim, e dela emerge uma sabedoria que impulsiona meu coração e mobiliza minha alma. É um movimento da alma, uma jornada interior, a própria pulsação da vida. Contemplo as estrelas-do-mar. Repousam na areia, como joias sob o céu, e parecem contemplar as alturas. Seu olhar se eleva, atravessa as nuvens e se perde nas constelações celestes. E eu, posicionado entre a terra e o céu, observo e contemplo. Absorto, extasiado, maravilhado, pois um espetáculo se revela diante de mim. O espetáculo da vida, o espetáculo da existência em sua plenitude. A vida é um mistério. E esse mistério só pode ser desvendado através da experiência. É um mistério que se desvenda com o amor. O amor é a contemplação. Pois cada momento, cada instante, se transforma em uma narrativa. Se transforma em minha narrativa. Se transforma em nossa narrativa.  A bioluminescência dos corpos celestes, como vaga-lumes soltos e estrelas cadentes, assemelha-se a sóis que orbitam em torno dos meus sonhos. Sinto-me tomado por uma profunda alegria. Em meu interior, emerge a noção do ser, como nuvens translúcidas que conduzem a uma viagem transcendental, levando a chuva que fertiliza os campos. A névoa e o orvalho da noite, com seu frescor, envolvem-me, como diamantes lapidados pela rotação da Terra e pela movimentação das águas. Deleito-me neste instante, na transcendência da minha própria visão, na contemplação. Este processo assemelha-se à Lua que orbita a Terra, a um universo em constante movimento, que transcende o infinito e ultrapassa todas as possibilidades. É um milagre. A vida é um milagre. E as borboletas perenes, elas se foram, levadas pelo vento do Norte, enquanto as estrelas cintilam incessantemente. Essa luz dança sobre meus olhos, em uma sinfonia silenciosa, perceptível apenas ao espírito mais sensível, que a pode sentir e ouvir. Por meio dessa sinfonia, tudo se move: as ondas na praia, as folhas das palmeiras, as flores da laranjeira, as rosas perfumadas, a brisa marinha e o aroma característico da terra seca que recebe a chuva tardia, tudo se reconstitui em um sistema, aberto para que possamos compreender. Compreender, decifrar todos os enigmas e conferir sentido à vida. Ao norte, a estrela radiante, guia dos peregrinos e referência dos viajantes, onde as embarcações enfrentam as tempestades. E eu aqui, com os pés livres na areia, cada grão um universo, cada estrela refletida na areia, um símbolo de inocência e esperança. Procuro decifrar cada enigma, cada código desses mistérios que se espalham pela imensidão arenosa até o horizonte infinito. Estrela após estrela, constelações náuticas, em repouso silencioso sobre os grãos da areia. Tudo se aquieta, mas o silêncio é rompido pelo movimento das águas, águas transparentes, águas esverdeadas, como se todas as turquesas, pérolas e diamantes tivessem sido desfeitos e fundidos em um mar cristalino, onde minha alma navega e minha imaginação mergulha.
Eis a cena da coesão, o instante do equilíbrio. Estrelas que, abraçando a areia da praia, encontram sua firmeza. Ondas que se agitam sobre as dunas, sem jamais alcançar as montanhas. Águas que colidem contra as rochas, mas não as conseguem fragmentar. Da mesma forma, nosso espírito, ao contemplar a beleza da natureza, do céu, do mar e das estrelas-do-mar, torna-se inabalável, enraizado. Desse modo, podemos sorver de um oceano ainda mais profundo do que o que se apresenta aos olhos. Um outro oceano. Um oceano que transcende nossa capacidade de percepção física, um oceano espiritual. Ali reside um trono, o trono da sustentação, da manutenção de todo o cosmos, de todo o universo. E ali se assenta Aquele que está à direita da majestade nas alturas, envolto em seu manto, o manto da glória, da luz e da vida. Dele emanam, em profusão, a bondade, a beleza e a verdade, preenchendo abundantemente nossas vidas.

 

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