C. J. Jacinto
O sol se despede, e subitamente, o
vento anuncia a chegada da noite. Com ela, surge a ausência, acompanhada de
apreensão e temor. Em suas mãos, ela carrega um livro intitulado "Livro de
Mistérios", repleto de enigmas que a razão humana não consegue desvendar:
a própria existência. Observamos, então, a casa fechada, morada da
ausência. Antes habitada por seres e agora abandonada, a ausência ali se
estabeleceu, tomando posse do espaço. E, como se não bastasse, ela se
multiplica, ramificando-se em inúmeras outras ausências.
Assim, podemos contemplar o
passado, povoado por figuras e criaturas que não mais existem. Esses são os
mistérios contidos no livro que ela porta, um livro lacrado, inacessível. É
algo completamente indecifrável, que contém todas as perguntas sem resposta, e
nos perdemos nesse turbilhão de páginas intocáveis, que não podem ser rasgadas
nem lidas. Avanço pela noite serena, imperturbável. As ruas silenciosas se
estendem sob a tênue iluminação dos postes, enquanto as folhas, suspensas nos
galhos das árvores, dançam suavemente ao sabor da brisa noturna. Essa brisa,
embora percorra todo o espaço, não consegue alterar a posição das estrelas no
céu. Perdido em pensamentos solitários, sinto-me também uma ausência.
Ausente da companhia dos
amigos mais queridos, distante daqueles que amo, encontro-me só, incorporando
em mim a própria sensação da ausência, que se espalha ao meu redor como um
manto. Observo o mundo ao meu redor, buscando transcender as inquietudes que me
afligem. A alma oprimida, sinto um peso interior que me impede de compreender
os mistérios da vida.
Necessito de algo além da reflexão filosófica, almejo um mundo mais
profundo e vasto, que me conduza a momentos de transcendência. Desejo
contemplar, para além da existência terrena, a esperança de um futuro onde meus
sonhos possam renascer.
Emito um clamor, um grito
provocado pelo meu próprio medo, na esperança de que a ausência se
manifestasse. Contudo, a ausência persiste, como se não existisse. Apesar
disso, eu a vejo, a percebo, sinto sua presença. Alguns poderiam questionar
minha sanidade, mas asseguro que não estou enlouquecendo. Talvez este seja um
momento de revelação, que me permite enxergar o que a maioria não consegue. A
ausência, por sua vez, me observa, permanecendo ao meu lado. É como se
estivesse unida à minha sombra, arrastando-se pelo caminho, na tentativa de me
persuadir a acreditar que possui uma sabedoria superior à minha.
Ao refletir sobre o passado e
o futuro, e observando o presente, percebo apenas a extensão da estrada que
sustenta meus passos. A cada avanço, a ausência se manifesta, rondando-me. O
tempo, na tentativa de dissipá-la, provoca em mim um clamor repetido:
"Afaste-se, não a quero". Contudo, ela se associa à solidão,
estabelecendo com ela uma forte ligação, e assim se instala em mim, como parte
intrínseca do meu ser, como meu destino, como a própria jornada que percorro.
No trajeto, observo uma
pequena flor e também um arbusto de vassoura. Há outros elementos, como pedras
e blocos, que compõem o pavimento desta terra batida, por onde tantos
caminharam que suas pegadas se apagaram. Recordo-me de cada um, e contudo, a
ausência delineia cada rosto, cada perfil daqueles que, durante tantos anos,
cruzaram este caminho e agora não mais o fazem. Permanece, porém, uma marca,
invisível, como se a própria ausência a revelasse a mim. Toda aquela multidão,
que passou gritando, cantando, chorando, agora repousa em silêncio. Um silêncio
sepulcral. Fazem parte da história.
A questão central que me impulsiona é a busca por compreensão. Anseio por
explorar o desconhecido, por desvendar os mistérios que me escapam, aqueles que
residem, hermeticamente selados, no cofre de minha própria existência. Almejo
abrir essa arca, para que, como astros aprisionados, a luz do entendimento se
liberte, iluminando a clareza de que todos os enigmas da vida podem ser
decifrados.
Contudo, a ausência detém esse conhecimento, essa posse. Ela se manifesta,
retira-se, e, subitamente, me vejo em meio ao vazio. Então, a solidão e a
ausência desaparecem. Ela partiu, pois a presença agora me envolve. A
oportunidade de elucidar a personificação de todas as ausências se esvaiu. Em
meu interior, observo a vastidão da multidão. Ao contemplar o
horizonte infinito, meus olhos se perdem na imensidão marítima. Sinto, em meu
íntimo, a vastidão que impulsiona minha alma e meu coração, transparente como a
água. Entre as lembranças, enumero cada saudade, como estrelas fulgurantes a
adornar o oceano. Galáxias ocultas em minha imaginação revelam a essência da
tristeza e da alegria, a fusão do frio e do calor, da beleza e do mistério. Em
mim e fora de mim, reside a graça, a vida e a contemplação. Ao longo da
praia, contemplo as luminárias que acendem a chama da emoção em meu peito,
preenchendo-me de expectativa. Sinto-me feliz, completamente presente,
vivenciando um instante em que me aprofundo na essência do meu ser. As
estrelas, tanto no céu quanto na terra, revelam uma união cósmica que supera
minha compreensão, mas que, mesmo assim, inunda meu coração de alegria. Uma paz
profunda reside em mim, e dela emerge uma sabedoria que impulsiona meu coração
e mobiliza minha alma. É um movimento da alma, uma jornada interior, a própria
pulsação da vida. Contemplo as estrelas-do-mar. Repousam na areia, como
joias sob o céu, e parecem contemplar as alturas. Seu olhar se eleva, atravessa
as nuvens e se perde nas constelações celestes. E eu, posicionado entre a terra
e o céu, observo e contemplo. Absorto, extasiado, maravilhado, pois um
espetáculo se revela diante de mim. O espetáculo da vida, o espetáculo da
existência em sua plenitude. A vida é um mistério. E esse mistério só pode ser
desvendado através da experiência. É um mistério que se desvenda com o amor. O
amor é a contemplação. Pois cada momento, cada instante, se transforma em uma
narrativa. Se transforma em minha narrativa. Se transforma em nossa
narrativa. A bioluminescência dos corpos celestes, como vaga-lumes
soltos e estrelas cadentes, assemelha-se a sóis que orbitam em torno dos meus
sonhos. Sinto-me tomado por uma profunda alegria. Em meu interior, emerge a
noção do ser, como nuvens translúcidas que conduzem a uma viagem
transcendental, levando a chuva que fertiliza os campos. A névoa e o orvalho da
noite, com seu frescor, envolvem-me, como diamantes lapidados pela rotação da
Terra e pela movimentação das águas. Deleito-me neste instante, na
transcendência da minha própria visão, na contemplação. Este processo
assemelha-se à Lua que orbita a Terra, a um universo em constante movimento,
que transcende o infinito e ultrapassa todas as possibilidades. É um milagre. A
vida é um milagre. E as borboletas perenes, elas se foram, levadas pelo
vento do Norte, enquanto as estrelas cintilam incessantemente. Essa luz dança
sobre meus olhos, em uma sinfonia silenciosa, perceptível apenas ao espírito
mais sensível, que a pode sentir e ouvir. Por meio dessa sinfonia, tudo se
move: as ondas na praia, as folhas das palmeiras, as flores da laranjeira, as
rosas perfumadas, a brisa marinha e o aroma característico da terra seca que
recebe a chuva tardia, tudo se reconstitui em um sistema, aberto para que
possamos compreender. Compreender, decifrar todos os enigmas e conferir sentido
à vida. Ao norte, a estrela radiante, guia dos peregrinos e referência dos
viajantes, onde as embarcações enfrentam as tempestades. E eu aqui, com os pés
livres na areia, cada grão um universo, cada estrela refletida na areia, um
símbolo de inocência e esperança. Procuro decifrar cada enigma, cada código
desses mistérios que se espalham pela imensidão arenosa até o horizonte
infinito. Estrela após estrela, constelações náuticas, em repouso silencioso
sobre os grãos da areia. Tudo se aquieta, mas o silêncio é rompido pelo
movimento das águas, águas transparentes, águas esverdeadas, como se todas as
turquesas, pérolas e diamantes tivessem sido desfeitos e fundidos em um mar
cristalino, onde minha alma navega e minha imaginação mergulha.
Eis a cena da coesão, o instante do equilíbrio. Estrelas que, abraçando a areia
da praia, encontram sua firmeza. Ondas que se agitam sobre as dunas, sem jamais
alcançar as montanhas. Águas que colidem contra as rochas, mas não as conseguem
fragmentar. Da mesma forma, nosso espírito, ao contemplar a beleza da natureza,
do céu, do mar e das estrelas-do-mar, torna-se inabalável, enraizado. Desse
modo, podemos sorver de um oceano ainda mais profundo do que o que se apresenta
aos olhos. Um outro oceano. Um oceano que transcende nossa capacidade de
percepção física, um oceano espiritual. Ali reside um trono, o trono da
sustentação, da manutenção de todo o cosmos, de todo o universo. E ali se
assenta Aquele que está à direita da majestade nas alturas, envolto em seu
manto, o manto da glória, da luz e da vida. Dele emanam, em profusão, a
bondade, a beleza e a verdade, preenchendo abundantemente nossas vidas.
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