Pages

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

O Infinito Indecifrável

 


Em um oceano distante, erguia-se uma ilha habitada por homens dedicados à observação estelar. Ao longo de suas vidas, o ciclo existencial desses indivíduos se manifestava na contagem das estrelas, em cada estação do ano, durante as horas noturnas. A observação celeste constituía o propósito de suas vidas, o foco central de suas atividades. Diariamente, dedicavam-se a identificar e registrar as estrelas do hemisfério Sul e do hemisfério Norte. Repousavam durante o dia e, em vigília constante, dedicavam cada noite à minuciosa contagem dos astros. Diariamente, do crepúsculo à aurora, quando as aves silenciavam e, em seguida, despertavam, seus cantos melodiosos ressoavam tanto ao findar quanto ao iniciar do dia, proporcionando um espetáculo único. Este deleitava os observadores, inspirando-os profundamente. Em meio à escuridão, muitos encontravam na poesia sua voz. Naquela ilha, todos os habitantes dedicavam-se a um único propósito: a contagem de estrelas. Durante séculos, essa atividade perdurou, até que um indivíduo, movido pelo desejo de superar os demais na contagem estelar, concebeu um instrumento óptico – a luneta.  Ele ascendeu a um monte elevado e, utilizando a luneta, passou a observar as estrelas que, de outra forma, permaneceriam invisíveis a olho nu. Distinguiu-se, então, por sua capacidade de catalogar um número superior de astros. Em reconhecimento a esse conhecimento, foi elevado ao posto de rei, governante da ilha, pois o homem que detivesse maior conhecimento sobre as estrelas, e, consequentemente, o seu número, era considerado o mais sábio.

 A lei da existência pode ser compreendida, em certa medida, por aqueles que possuem a capacidade de discernimento aguçado, transcendendo a percepção superficial da realidade. Ao vislumbrar além do tangível, atingem-se esferas de conhecimento mais profundas e complexas, que escapam à compreensão imediata. Essa habilidade de apreensão, alicerçada na sabedoria, confere uma perspectiva abrangente, permitindo antever nuances e implicações ocultas à maioria. A visão, nesse contexto, manifesta-se como a faculdade de discernir a direção a ser seguida, orientando as escolhas e revelando aspectos da realidade que a sabedoria, em sua essência, pode elucidar. Durante muitos anos, aquele homem apreciava ascender ao cume da montanha para observar as estrelas, aprimorando-se constantemente. Ele desenvolvia lentes cada vez mais potentes, ampliando sua capacidade de observação. A perspectiva daqueles que permaneciam no vale, por outro lado, mantinha-se limitada, como se estivesse estagnada no tempo. Não se observava retrocesso, mas também não se vislumbrava progresso. Contudo, o mais notável era a satisfação que sentiam, contentando-se em contemplar as mesmas estrelas noite após noite. Dentro daquele grupo, porém, havia quem aspirasse ao conhecimento astronômico, buscando a evolução e o progresso. Este indivíduo, impulsionado pela ambição, alcançou um conhecimento superior àqueles que se recusaram a superar suas limitações.

 A conformidade, ao restringir a expressão individual, pode limitar a capacidade de desenvolvimento pessoal. Se negligenciarmos a possibilidade de progredir e superar nossos próprios limites, corremos o risco de permanecer estagnados. Nessa condição, enquanto outros avançam e se superam, distanciam-se de nós. Assim, a adesão a um estado de conformidade frequentemente se traduz em um retrocesso.
 Em razão disso, o homem, detentor de um sistema de contabilidade avançado e de um conhecimento profundo sobre astros situados a distâncias incomensuráveis, que jamais poderiam ser observados a olho nu, dedicava-se a observá-los, catalogá-los e mensurá-los. Essa prática gerou no povo da ilha uma inveja que o levou ao ódio. Contudo, alguns poucos, notáveis por sua sabedoria e sensatez, admiravam a vastidão do conhecimento astronômico do homem, que parecia transcender sua época. Embora pudesse ser considerado um indivíduo excêntrico, à frente de seu tempo e alheio às limitações geográficas, ele era respeitado por uma minoria por sua postura, seu saber, sua inteligência, sua audácia, sua criatividade e sua capacidade de superação. Observando as estrelas e dedicando-se à construção de instrumentos cada vez mais sofisticados para contá-las, o homem, ao escalar a montanha diariamente, transcendia os limites de sua própria imaginação. Essa busca, notável e extraordinária, proporcionava-lhe não apenas uma visão ampliada do cosmos, mas também uma perspectiva singular da ilha, abrangendo toda a sua extensão, desde o norte ao sul, e revelando suas praias em toda a sua beleza.  Feliz é o homem que observa os fundamentos da criação, que explora seu interior e sua imaginação, e que percebe a beleza que transcende a visão. Ele, guiado pela sabedoria do coração, percorre a interioridade, onde a maravilha exterior se reflete e se preserva. Assim, torna-se um homem sábio, cuja alma resplandece como a lua, emergindo radiante após as noites sombrias, por entre as mais altas montanhas.
Naquele dia, todos os homens que habitavam o vale, onde seus ancestrais, por gerações, se contentaram em contemplar apenas as estrelas visíveis a olho nu, reuniram-se. Ascenderam ao cume da montanha e questionaram o homem sábio e notável, solicitando que lhes transmitisse os conhecimentos necessários para a construção de lunetas e instrumentos de observação estelar. O homem, movido pela compaixão, concedeu-lhes as instruções, permitindo que também construíssem seus instrumentos e, assim, pudessem catalogar um número maior de estrelas e transcender os limites da observação noturna. Após dominar a técnica de produção de artefatos, aquelas pessoas desenvolveram a capacidade de observar as estrelas distantes. Em consequência, alcançaram um estado de sabedoria. Abandonaram as planícies e passaram a residir nas montanhas. As cidades, agora elevadas, foram construídas sobre os cumes mais altos da ilha. Do alto das montanhas, as cidades resplandeciam, suas luzes intensas irradiando claridade sobre todo o vale, de modo que, enquanto o sol iluminava a ilha durante o dia, à noite o vale era banhado pela luz das cidades situadas nos altos montes. A sabedoria se disseminou, e aquele homem notável, outrora o único a dominar o conhecimento estelar, certa vez, com seu instrumento, observou a areia da praia da ilha. Ali, naquele substrato, ele notou elementos que se assemelhavam a estrelas, aprisionados. Então, dirigindo-se aos que o acompanhavam, ele declarou: "Permaneçam aqui, dedicando-se ao estudo dos astros. Aperfeiçoem seus instrumentos, tornando-os cada vez mais precisos na busca por estrelas distantes. Eu, por outro lado, irei à praia." Dessa forma, todos aqueles homens aprimoraram a arte da observação estelar, redescobrindo constelações antes imperceptíveis ao olhar comum, tornando-se exímios astrônomos. Em seguida, o homem singular desceu, pois, do alto de sua observação, através de seu instrumento, vislumbrou inúmeras estrelas, como que precipitadas, imersas na areia da praia. Ele desceu, então, para catalogá-las. Apesar da fraqueza nas pernas e do tremor nas mãos, o homem ajoelhou-se e iniciou a tarefa de resgatar as estrelas do mar, arremessando-as de volta às águas, uma a uma. Nesse momento, porém, sua respiração se interrompeu. Ali, a vida terrena para ele se dissolveu na areia, entre as estrelas caídas e a carne de um homem, a carne de um homem envelhecido que, durante toda a existência, contemplou as estrelas do céu e, no derradeiro instante, contava as estrelas do mar.
Os homens que estavam no alto da montanha desceram, tomados pela dor, e recolheram o corpo do sábio. Prantearam à beira-mar, onde encontraram um vaso contendo uma pequena árvore. Depositaram o corpo do sábio sobre o vaso e o entregaram às ondas impetuosas do mar, que o conduziram para o infinito.


C. J. Jacinto

0 comentários:

Postar um comentário