O Vale da Escuridão
C. J. Jacinto
Entre este planeta habitado por seres mortais, estendia-se um vale profundo e
sombrio, onde a escuridão imperava constante. A noite, em sua essência, trazia
consigo a obscuridade. Contudo, mesmo durante o dia, densas nuvens negras
pairavam sobre o vale, impedindo a passagem da luz solar. A escuridão dominava
aquele lugar. Ali residia um homem, juntamente com muitos outros, consumidos
pelo desânimo, tanto de dia quanto de noite, sobrecarregados por um fardo. A
tristeza, alojada em seus corações, emergia com a noite, trazendo consigo a
nostalgia e a amargura, sentimentos familiares àqueles que jamais contemplavam
a claridade do sol.
Naquele lugar, a identidade visual de cada indivíduo permanecia oculta, restando apenas o eco de suas emoções: o pranto e a lamentação. O olhar, direcionado ao céu, deparava-se unicamente com a profusão de nuvens que, ao longo do dia, dominavam a paisagem e, à noite, obscureciam o brilho das estrelas. Tal era a condição dos que ali habitavam, imersos em uma atmosfera de profunda escuridão.
Certa vez, todos os homens se reuniram e
expressaram a necessidade de uma ação. Afirmaram que a situação em que viviam
era insustentável, uma condição adversa e complexa, que lhes impedia de se
reconhecerem e de reconhecerem uns aos outros. A impossibilidade de contemplar
seus próprios rostos, de observar seus reflexos, resultava em uma profunda
ignorância de si mesmos e do próximo. Lamentavam a dificuldade de vivenciar a
alegria do nascimento, a beleza de suas companheiras e a imagem angelical de
seus filhos. Diante dessa realidade, consideraram urgente a busca por uma
solução.
Contudo, uma geração sucedia a outra, e
as ações concretas permaneciam inalteradas. Realizavam-se encontros em diversos
locais, expressando-se pesar pela situação. Cada indivíduo, porém, parecia
caminhar com sua esperança extinta, como se carregasse um peso, um fardo inútil
desde o nascimento até a morte.
A tristeza pairava densa sobre todos
aqueles aspectos, evocando uma profunda nostalgia e melancolia que se estendia
por aquelas terras, vales e montanhas, atingindo as cidades fúteis. Desses
lugares, do alto de um monte, nenhuma luz sequer podia ser avistada. Era um
ambiente de trevas e desolação, que, a quem ali permanecesse, infligia uma
profunda agonia, uma angústia na alma, impedindo a autocompreensão e a empatia.
Imaginem rosas a desabrochar, murchar e morrer sem que seus habitantes
conseguissem discernir as cores de uma rosa amarela e uma vermelha. Tal era a
condição daqueles que, embora lamentassem e clamassem por ação, permaneciam
indiferentes, até mesmo procrastinando a transformação radical que seu ambiente
demandava.
Contudo, cumpre ressaltar um detalhe
singular: uma nuvem, a única nuvem que anualmente se detinha sobre o cume da
montanha mais alta da região. Durante sua permanência diurna, mesmo em meio à
escuridão, manifestava-se um clarão, um reflexo, uma luz intensa que durava
apenas alguns segundos, talvez menos. Nesse breve instante, uma luz fugaz
irradiava-se, tão efêmera que impedia a identificação precisa dos rostos
daqueles que, do alto da montanha, testemunhavam o fenômeno.
Uma criança teve uma ideia. Ela dirigiu-se
ao pai e disse: "Pai, poderia me emprestar sua lâmpada? Preciso muito
dela." O pai, curioso, perguntou: "Para que necessitas de uma
lâmpada? Uma lâmpada comum, que não te iluminará em nada, pois não fará mais do
que ser segurada em tuas mãos." O filho respondeu: "Irei à encosta da
montanha, e esperarei as nuvens. Quando uma nuvem, por um breve instante,
liberar dois ou três raios, tomarei uma direção, e a encosta me guiará para
cima. Lá esperarei por um ano, até que ela retorne, para que eu possa trazer de
volta, para todos nós, a esperança."
Assim sucedeu. O pai entregou à criança sua lâmpada. A criança, então, apanhou um alforje com muitos pães e muita água, e ascendeu com dificuldade a montanha. Contava os dias para que, no momento da ascensão, estivesse próxima da nuvem que anualmente presenteava o vale com, ao menos, breves relâmpagos de luz, ainda que tênues, a fim de testemunhar a esperança. Pois essa era a missão da nuvem: comunicar aos homens daquele lugar que a esperança existia.
Faltando poucos dias para que a jovem se
aproximasse novamente, o pai da criança providenciou-lhe uma alforje com pão e
um cantil com água. O menino, sem hesitar, iniciou a subida, avançando
lentamente. Sabia que levaria alguns dias para atingir o cume e mais alguns
dias para retornar. Os cálculos foram feitos para que chegasse ao topo com
antecedência, a fim de observar a chegada da nuvem. Ao alcançar o cume, comeu
pão, bebeu água e, próximo à sua lamparina, aguardou a chegada da nuvem. Ali,
conceberia uma grande ideia.
Ele almejava capturar um raio, daqueles clarões provenientes das nuvens. Imaginava que, ao fazê-lo, poderia distribuí-lo e direcioná-lo à terra. Antecipando a aproximação da nuvem, percebeu seu deslocamento sobre o cume. Empunhou sua lâmpada e lançou-a ao ar, pois os anciãos afirmavam que, se uma lâmpada de metal fosse polida até o brilho de um espelho, atrairia raios. Observando o movimento da nuvem, posicionou a lâmpada sobre uma pedra, a uma curta distância. Quando os primeiros relâmpagos irromperam, um deles atingiu a lâmpada. Esta, repleta de óleo, acendeu-se. O jovem, segurando a lâmpada flamejante, contemplou a paisagem e percebeu que o cume da montanha estava adornado por inúmeras flores.
Ao descer por uma trilha que se revelava sob a intensa claridade, ele se aproximava. A multidão, reunida abaixo, observava o menino que portava uma lâmpada. Uma pequena luz, emanada do cume da montanha, descia lentamente, e o povo regozijava-se com a presença do jovem que agora caminhava com a lâmpada acesa. Ao alcançar a planície, a grande multidão formou uma fila. Então, um a um, o menino começou a transferir o fogo de sua lâmpada para as outras. Cada pessoa recebeu uma centelha, e assim, cada lâmpada foi acendendo, transformando-se em uma imensa fonte de luz. Em pouco tempo, milhares e milhares de pessoas portavam lâmpadas acesas. Com a iluminação, o vale inteiro foi transformado. Agora, cada indivíduo podia contemplar o rosto do outro. As nuvens escuras, temendo a vasta quantidade de luz, começaram a se dissipar, desfazendo-se uma a uma. O céu tornou-se azul e nuvens brancas surgiram. A luz do sol também brilhou, e as pessoas, maravilhadas, contemplavam o céu, exclamando sua beleza. Outros observavam as pequenas nuvens que flutuavam, e um grande júbilo tomou conta do lugar. Agora, a luz do dia revelava as montanhas, os vales, os córregos, as árvores; tudo era visível. A magnificência da natureza se revelava. Ademais, no primeiro dia de sol, ao testemunhar o pôr do sol, a beleza do entardecer também foi contemplada. Uma cena verdadeiramente maravilhosa. Alguém tentou apagar sua lâmpada, mas o menino advertiu: "Não apagueis vossas lâmpadas, pois precisaremos delas para as noites que virão."
Após o anoitecer, os presentes contemplaram um céu profuso em estrelas. A presença da lua, discreta e serena, colaborava para a iluminação da noite. A suavidade do ambiente era evidente, combinando a luz lunar com o brilho das lâmpadas, que aqueciam e iluminavam o local. Com a chegada da alvorada, um novo espetáculo se apresentou àqueles que ali estavam: o amanhecer. O sol, ascendendo por trás das montanhas, despertou grande alegria, pois perceberam que a vida alternava entre a beleza da noite estrelada e a luminosidade do dia ensolarado. E, assim, descobriram a possibilidade de felicidade na simples contemplação dessas maravilhas.
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