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sexta-feira, 10 de outubro de 2025

O Infinito Indecifrável

 


Em um oceano distante, erguia-se uma ilha habitada por homens dedicados à observação estelar. Ao longo de suas vidas, o ciclo existencial desses indivíduos se manifestava na contagem das estrelas, em cada estação do ano, durante as horas noturnas. A observação celeste constituía o propósito de suas vidas, o foco central de suas atividades. Diariamente, dedicavam-se a identificar e registrar as estrelas do hemisfério Sul e do hemisfério Norte. Repousavam durante o dia e, em vigília constante, dedicavam cada noite à minuciosa contagem dos astros. Diariamente, do crepúsculo à aurora, quando as aves silenciavam e, em seguida, despertavam, seus cantos melodiosos ressoavam tanto ao findar quanto ao iniciar do dia, proporcionando um espetáculo único. Este deleitava os observadores, inspirando-os profundamente. Em meio à escuridão, muitos encontravam na poesia sua voz. Naquela ilha, todos os habitantes dedicavam-se a um único propósito: a contagem de estrelas. Durante séculos, essa atividade perdurou, até que um indivíduo, movido pelo desejo de superar os demais na contagem estelar, concebeu um instrumento óptico – a luneta.  Ele ascendeu a um monte elevado e, utilizando a luneta, passou a observar as estrelas que, de outra forma, permaneceriam invisíveis a olho nu. Distinguiu-se, então, por sua capacidade de catalogar um número superior de astros. Em reconhecimento a esse conhecimento, foi elevado ao posto de rei, governante da ilha, pois o homem que detivesse maior conhecimento sobre as estrelas, e, consequentemente, o seu número, era considerado o mais sábio.

 A lei da existência pode ser compreendida, em certa medida, por aqueles que possuem a capacidade de discernimento aguçado, transcendendo a percepção superficial da realidade. Ao vislumbrar além do tangível, atingem-se esferas de conhecimento mais profundas e complexas, que escapam à compreensão imediata. Essa habilidade de apreensão, alicerçada na sabedoria, confere uma perspectiva abrangente, permitindo antever nuances e implicações ocultas à maioria. A visão, nesse contexto, manifesta-se como a faculdade de discernir a direção a ser seguida, orientando as escolhas e revelando aspectos da realidade que a sabedoria, em sua essência, pode elucidar. Durante muitos anos, aquele homem apreciava ascender ao cume da montanha para observar as estrelas, aprimorando-se constantemente. Ele desenvolvia lentes cada vez mais potentes, ampliando sua capacidade de observação. A perspectiva daqueles que permaneciam no vale, por outro lado, mantinha-se limitada, como se estivesse estagnada no tempo. Não se observava retrocesso, mas também não se vislumbrava progresso. Contudo, o mais notável era a satisfação que sentiam, contentando-se em contemplar as mesmas estrelas noite após noite. Dentro daquele grupo, porém, havia quem aspirasse ao conhecimento astronômico, buscando a evolução e o progresso. Este indivíduo, impulsionado pela ambição, alcançou um conhecimento superior àqueles que se recusaram a superar suas limitações.

 A conformidade, ao restringir a expressão individual, pode limitar a capacidade de desenvolvimento pessoal. Se negligenciarmos a possibilidade de progredir e superar nossos próprios limites, corremos o risco de permanecer estagnados. Nessa condição, enquanto outros avançam e se superam, distanciam-se de nós. Assim, a adesão a um estado de conformidade frequentemente se traduz em um retrocesso.
 Em razão disso, o homem, detentor de um sistema de contabilidade avançado e de um conhecimento profundo sobre astros situados a distâncias incomensuráveis, que jamais poderiam ser observados a olho nu, dedicava-se a observá-los, catalogá-los e mensurá-los. Essa prática gerou no povo da ilha uma inveja que o levou ao ódio. Contudo, alguns poucos, notáveis por sua sabedoria e sensatez, admiravam a vastidão do conhecimento astronômico do homem, que parecia transcender sua época. Embora pudesse ser considerado um indivíduo excêntrico, à frente de seu tempo e alheio às limitações geográficas, ele era respeitado por uma minoria por sua postura, seu saber, sua inteligência, sua audácia, sua criatividade e sua capacidade de superação. Observando as estrelas e dedicando-se à construção de instrumentos cada vez mais sofisticados para contá-las, o homem, ao escalar a montanha diariamente, transcendia os limites de sua própria imaginação. Essa busca, notável e extraordinária, proporcionava-lhe não apenas uma visão ampliada do cosmos, mas também uma perspectiva singular da ilha, abrangendo toda a sua extensão, desde o norte ao sul, e revelando suas praias em toda a sua beleza.  Feliz é o homem que observa os fundamentos da criação, que explora seu interior e sua imaginação, e que percebe a beleza que transcende a visão. Ele, guiado pela sabedoria do coração, percorre a interioridade, onde a maravilha exterior se reflete e se preserva. Assim, torna-se um homem sábio, cuja alma resplandece como a lua, emergindo radiante após as noites sombrias, por entre as mais altas montanhas.
Naquele dia, todos os homens que habitavam o vale, onde seus ancestrais, por gerações, se contentaram em contemplar apenas as estrelas visíveis a olho nu, reuniram-se. Ascenderam ao cume da montanha e questionaram o homem sábio e notável, solicitando que lhes transmitisse os conhecimentos necessários para a construção de lunetas e instrumentos de observação estelar. O homem, movido pela compaixão, concedeu-lhes as instruções, permitindo que também construíssem seus instrumentos e, assim, pudessem catalogar um número maior de estrelas e transcender os limites da observação noturna. Após dominar a técnica de produção de artefatos, aquelas pessoas desenvolveram a capacidade de observar as estrelas distantes. Em consequência, alcançaram um estado de sabedoria. Abandonaram as planícies e passaram a residir nas montanhas. As cidades, agora elevadas, foram construídas sobre os cumes mais altos da ilha. Do alto das montanhas, as cidades resplandeciam, suas luzes intensas irradiando claridade sobre todo o vale, de modo que, enquanto o sol iluminava a ilha durante o dia, à noite o vale era banhado pela luz das cidades situadas nos altos montes. A sabedoria se disseminou, e aquele homem notável, outrora o único a dominar o conhecimento estelar, certa vez, com seu instrumento, observou a areia da praia da ilha. Ali, naquele substrato, ele notou elementos que se assemelhavam a estrelas, aprisionados. Então, dirigindo-se aos que o acompanhavam, ele declarou: "Permaneçam aqui, dedicando-se ao estudo dos astros. Aperfeiçoem seus instrumentos, tornando-os cada vez mais precisos na busca por estrelas distantes. Eu, por outro lado, irei à praia." Dessa forma, todos aqueles homens aprimoraram a arte da observação estelar, redescobrindo constelações antes imperceptíveis ao olhar comum, tornando-se exímios astrônomos. Em seguida, o homem singular desceu, pois, do alto de sua observação, através de seu instrumento, vislumbrou inúmeras estrelas, como que precipitadas, imersas na areia da praia. Ele desceu, então, para catalogá-las. Apesar da fraqueza nas pernas e do tremor nas mãos, o homem ajoelhou-se e iniciou a tarefa de resgatar as estrelas do mar, arremessando-as de volta às águas, uma a uma. Nesse momento, porém, sua respiração se interrompeu. Ali, a vida terrena para ele se dissolveu na areia, entre as estrelas caídas e a carne de um homem, a carne de um homem envelhecido que, durante toda a existência, contemplou as estrelas do céu e, no derradeiro instante, contava as estrelas do mar.
Os homens que estavam no alto da montanha desceram, tomados pela dor, e recolheram o corpo do sábio. Prantearam à beira-mar, onde encontraram um vaso contendo uma pequena árvore. Depositaram o corpo do sábio sobre o vaso e o entregaram às ondas impetuosas do mar, que o conduziram para o infinito.


C. J. Jacinto

domingo, 5 de outubro de 2025

O Bem Vital

 



Suspiro o hálito do dia chuvoso
Estrelas e pêndulos da noite fria
O Cáucaso e o vento norte raivoso
Os termos ínfimos da nostalgia
Minha alma tão farta e amedrontada
No noturno alento de uma sinfonia
Onde a vinha tão doce açucarada
O mel da vida que do céu escorria
Meu lagar de esperança que alumia
Nessa fé forte que em mim resplandecia
O bem da confiança que eu tenho crido
A celeste aurora que traz um novo dia
O bem da Glória que por mim Deus fazia
Meu alento que faz a vida ter sentido
 
 
C. J. Jacinto

O Vale da Escuridão

O Vale da Escuridão

 C. J. Jacinto

Entre este planeta habitado por seres mortais, estendia-se um vale profundo e sombrio, onde a escuridão imperava constante. A noite, em sua essência, trazia consigo a obscuridade. Contudo, mesmo durante o dia, densas nuvens negras pairavam sobre o vale, impedindo a passagem da luz solar. A escuridão dominava aquele lugar. Ali residia um homem, juntamente com muitos outros, consumidos pelo desânimo, tanto de dia quanto de noite, sobrecarregados por um fardo. A tristeza, alojada em seus corações, emergia com a noite, trazendo consigo a nostalgia e a amargura, sentimentos familiares àqueles que jamais contemplavam a claridade do sol.

 Naquele lugar, a identidade visual de cada indivíduo permanecia oculta, restando apenas o eco de suas emoções: o pranto e a lamentação. O olhar, direcionado ao céu, deparava-se unicamente com a profusão de nuvens que, ao longo do dia, dominavam a paisagem e, à noite, obscureciam o brilho das estrelas. Tal era a condição dos que ali habitavam, imersos em uma atmosfera de profunda escuridão.

 Certa vez, todos os homens se reuniram e expressaram a necessidade de uma ação. Afirmaram que a situação em que viviam era insustentável, uma condição adversa e complexa, que lhes impedia de se reconhecerem e de reconhecerem uns aos outros. A impossibilidade de contemplar seus próprios rostos, de observar seus reflexos, resultava em uma profunda ignorância de si mesmos e do próximo. Lamentavam a dificuldade de vivenciar a alegria do nascimento, a beleza de suas companheiras e a imagem angelical de seus filhos. Diante dessa realidade, consideraram urgente a busca por uma solução.
 Contudo, uma geração sucedia a outra, e as ações concretas permaneciam inalteradas. Realizavam-se encontros em diversos locais, expressando-se pesar pela situação. Cada indivíduo, porém, parecia caminhar com sua esperança extinta, como se carregasse um peso, um fardo inútil desde o nascimento até a morte.
 A tristeza pairava densa sobre todos aqueles aspectos, evocando uma profunda nostalgia e melancolia que se estendia por aquelas terras, vales e montanhas, atingindo as cidades fúteis. Desses lugares, do alto de um monte, nenhuma luz sequer podia ser avistada. Era um ambiente de trevas e desolação, que, a quem ali permanecesse, infligia uma profunda agonia, uma angústia na alma, impedindo a autocompreensão e a empatia. Imaginem rosas a desabrochar, murchar e morrer sem que seus habitantes conseguissem discernir as cores de uma rosa amarela e uma vermelha. Tal era a condição daqueles que, embora lamentassem e clamassem por ação, permaneciam indiferentes, até mesmo procrastinando a transformação radical que seu ambiente demandava.
 Contudo, cumpre ressaltar um detalhe singular: uma nuvem, a única nuvem que anualmente se detinha sobre o cume da montanha mais alta da região. Durante sua permanência diurna, mesmo em meio à escuridão, manifestava-se um clarão, um reflexo, uma luz intensa que durava apenas alguns segundos, talvez menos. Nesse breve instante, uma luz fugaz irradiava-se, tão efêmera que impedia a identificação precisa dos rostos daqueles que, do alto da montanha, testemunhavam o fenômeno.
 Uma criança teve uma ideia. Ela dirigiu-se ao pai e disse: "Pai, poderia me emprestar sua lâmpada? Preciso muito dela." O pai, curioso, perguntou: "Para que necessitas de uma lâmpada? Uma lâmpada comum, que não te iluminará em nada, pois não fará mais do que ser segurada em tuas mãos." O filho respondeu: "Irei à encosta da montanha, e esperarei as nuvens. Quando uma nuvem, por um breve instante, liberar dois ou três raios, tomarei uma direção, e a encosta me guiará para cima. Lá esperarei por um ano, até que ela retorne, para que eu possa trazer de volta, para todos nós, a esperança."

 Assim sucedeu. O pai entregou à criança sua lâmpada. A criança, então, apanhou um alforje com muitos pães e muita água, e ascendeu com dificuldade a montanha. Contava os dias para que, no momento da ascensão, estivesse próxima da nuvem que anualmente presenteava o vale com, ao menos, breves relâmpagos de luz, ainda que tênues, a fim de testemunhar a esperança. Pois essa era a missão da nuvem: comunicar aos homens daquele lugar que a esperança existia.


 Faltando poucos dias para que a jovem se aproximasse novamente, o pai da criança providenciou-lhe uma alforje com pão e um cantil com água. O menino, sem hesitar, iniciou a subida, avançando lentamente. Sabia que levaria alguns dias para atingir o cume e mais alguns dias para retornar. Os cálculos foram feitos para que chegasse ao topo com antecedência, a fim de observar a chegada da nuvem. Ao alcançar o cume, comeu pão, bebeu água e, próximo à sua lamparina, aguardou a chegada da nuvem. Ali, conceberia uma grande ideia.

 Ele almejava capturar um raio, daqueles clarões provenientes das nuvens. Imaginava que, ao fazê-lo, poderia distribuí-lo e direcioná-lo à terra. Antecipando a aproximação da nuvem, percebeu seu deslocamento sobre o cume. Empunhou sua lâmpada e lançou-a ao ar, pois os anciãos afirmavam que, se uma lâmpada de metal fosse polida até o brilho de um espelho, atrairia raios. Observando o movimento da nuvem, posicionou a lâmpada sobre uma pedra, a uma curta distância. Quando os primeiros relâmpagos irromperam, um deles atingiu a lâmpada. Esta, repleta de óleo, acendeu-se. O jovem, segurando a lâmpada flamejante, contemplou a paisagem e percebeu que o cume da montanha estava adornado por inúmeras flores.

 Ao descer por uma trilha que se revelava sob a intensa claridade, ele se aproximava. A multidão, reunida abaixo, observava o menino que portava uma lâmpada. Uma pequena luz, emanada do cume da montanha, descia lentamente, e o povo regozijava-se com a presença do jovem que agora caminhava com a lâmpada acesa. Ao alcançar a planície, a grande multidão formou uma fila. Então, um a um, o menino começou a transferir o fogo de sua lâmpada para as outras. Cada pessoa recebeu uma centelha, e assim, cada lâmpada foi acendendo, transformando-se em uma imensa fonte de luz. Em pouco tempo, milhares e milhares de pessoas portavam lâmpadas acesas. Com a iluminação, o vale inteiro foi transformado. Agora, cada indivíduo podia contemplar o rosto do outro. As nuvens escuras, temendo a vasta quantidade de luz, começaram a se dissipar, desfazendo-se uma a uma. O céu tornou-se azul e nuvens brancas surgiram. A luz do sol também brilhou, e as pessoas, maravilhadas, contemplavam o céu, exclamando sua beleza. Outros observavam as pequenas nuvens que flutuavam, e um grande júbilo tomou conta do lugar. Agora, a luz do dia revelava as montanhas, os vales, os córregos, as árvores; tudo era visível. A magnificência da natureza se revelava. Ademais, no primeiro dia de sol, ao testemunhar o pôr do sol, a beleza do entardecer também foi contemplada. Uma cena verdadeiramente maravilhosa. Alguém tentou apagar sua lâmpada, mas o menino advertiu: "Não apagueis vossas lâmpadas, pois precisaremos delas para as noites que virão."

 Após o anoitecer, os presentes contemplaram um céu profuso em estrelas. A presença da lua, discreta e serena, colaborava para a iluminação da noite. A suavidade do ambiente era evidente, combinando a luz lunar com o brilho das lâmpadas, que aqueciam e iluminavam o local. Com a chegada da alvorada, um novo espetáculo se apresentou àqueles que ali estavam: o amanhecer. O sol, ascendendo por trás das montanhas, despertou grande alegria, pois perceberam que a vida alternava entre a beleza da noite estrelada e a luminosidade do dia ensolarado. E, assim, descobriram a possibilidade de felicidade na simples contemplação dessas maravilhas.

 

 


 

O Despertar do Paraíso

 

O Despertar do Paraíso



Em um deserto vasto, erguia-se uma imponente figueira, sob a qual um peregrino, a cada entardecer, estabelecia seu acampamento para o pernoite. Ele portava consigo um antigo volume, fonte de meditação sobre um destino singular e a incessante busca pelo sentido da existência. Todas as noites, sob o manto estrelado, acendia seu modesto candeeiro e, à sua tênue luz, dedicava-se à leitura de algumas páginas. Por longos e incontáveis anos, não houve outro livro em suas mãos senão aquele exemplar único e intensamente manuseado, cujas páginas, já amareladas, evidenciavam a passagem do tempo e a constância de sua leitura. Era este o renomado “O Deserto dos Tártaros”.

Sua existência era marcada pela solidão. Órfão desde a tenra idade, por iniciativa própria decidiu explorar os confins mais inóspitos e remotos do planeta. Dada a constante necessidade de resguardar-se, elegeu uma figueira como refúgio noturno, buscando proteção contra o orvalho gélido das noites desérticas. Sua vida era intrinsecamente dedicada à introspecção; ele refletia mais do que proferia, dada a ausência de interlocutores para compartilhar pensamentos ou dialogar. Sua existência, rica em valiosos tesouros interiores, alicerçava-se em uma interioridade profunda, onde albergava uma percepção ilimitada de seu próprio ser. Embora consciente da perene companhia da solidão, não se deixava abater por tal condição. Encontrava nos grãos de areia do deserto e no cintilar das estrelas celestes um peculiar lenitivo para sua solitude.


Durante muitos anos, aquele ancião, já envolto em vestes esfarrapadas, percorria as vastas extensões do deserto, ora internando-se na frondosa floresta, ora cruzando as campinas em busca de flores. Sua existência tornou-se progressivamente mais solitária, e foi nesse isolamento que ele passou a decifrar a linguagem das flores, das estrelas e das árvores. Sua comunicação com elas era tão intrínseca quanto sua própria rotina. Tratava-se de um intercâmbio que transcendia a imaginação comum, um diálogo interior profundo que emanava do cerne de seu ser. Uma linguagem acessível apenas àqueles dotados de uma sensibilidade extraordinariamente aguçada, permitindo-lhes interagir de forma que não seria percebida como insanidade pelos observadores externos

Em um dia singular, transpondo o limiar do horizonte, o peregrino adentrou uma floresta e dali ascendeu a um cume adjacente, a fim de contemplar a vastidão do vale que se estendia, a perder de vista, em distâncias que aos olhos se afiguravam infinitas. Permaneceu ali por um período, e logo nuvens incipientemente se desenharam na longínqua extensão do firmamento, no quadrante onde a Estrela Polar indica o norte. Essas nuvens, paulatina e suavemente, aproximavam-se, agrupando-se a outras, tal qual blocos de algodão, atraídas por uma força ignota. Observando a cena, o peregrino testemunhou a confluência de múltiplos cúmulos, até que o firmamento, em sua totalidade, estivesse envolvido por uma camada compacta e sombria. Dela ressoava, para além daquela cortina etérea, um estrondo longínquo, como se uma maquinaria colossal, forjada de gelo e fogo, operasse nas profundezas da abóbada celeste.


Quando as primeiras gotas de chuva principiaram a cair, banhando o campo, as árvores e as flores, ele sentiu, por uma intuição profunda, que toda a natureza – desde as flores e as árvores até a relva – se deleitava com aquelas gotas celestes que caíam sobre as copas e irrigavam o vale, as montanhas e os campos. Um regozijo palpável pairava no ar: a exultação das árvores, da relva, das flores silvestres e das que se abriam nas copas de algumas árvores.



Então, elevando o olhar para as nuvens, interpelou-as: "Ó nuvens, por que não sois conduzidas ao deserto onde habito, para que lá possais irrigar também, com vossas chuvas celestes, a vastidão arenosa, e o deserto possa vicejar em flor? Assim, poderei viver à sombra de uma figueira e contemplar, do meu refúgio, as outrora áridas campinas, para que floresçam e as sementes germinem. Que, onde me encontro, surjam prados verdejantes, repletos de flores silvestres, e o aroma inebriante de seus perfumes me envolva nas noites em que contemplo as estrelas."

 Responderam as nuvens ao peregrino: "Sim, iremos, mas antes é crucial que transmitas as nossas diretrizes ao vento. Dir-lhe-ás que deverá recolher sementes de todas as florestas e de todas as campinas, e as leve, para que repousem sobre o deserto onde habitas. Após o vento acatar as tuas ordens e transportar as sementes para o deserto onde habitas, então nós, enfim, iremos e derramaremos nossas lágrimas celestes sobre a terra seca e árida daquele ermo. Consequentemente, as sementes germinarão."
 O peregrino elevou sua voz aos ventos, aqueles que sopram do sul, os ventos impetuosos. A eles pediu: "Ó ventos, peço-vos que, ao atravessardes a floresta, recolhais inúmeras sementes, sementes que germinem sobre o deserto. Percorrei os eucaliptos, as acácias, as palmeiras, as embaúbas, os flamboyants, as acácias, os jacarandás, os anjicos, as magnólias, as cerejeiras e os pessegueiros, e disseminai as sementes. Convidai os pássaros a voarem em vossas asas, para que também eles transportem e lancem muitas sementes sobre o deserto, sobre a minha morada, sobre o refúgio da minha esperança. Que ele floresça, que eu possa habitar em meio às flores, e desfrutar dos perfumes e dos aromas dos frutos maduros."


Do alto da esfera celeste, exalou-se um sopro sutil, um véu de ar, e com ele iniciou-se o movimento dos ventos. Estes, adentrando a floresta e as planícies, recolheram em seu curso outras brisas. As aves, guiadas pelas correntes aéreas, impulsionavam em voo suas asas e bicos, carregando consigo numerosas e valiosas sementes. O vento alcançou então o deserto, o deserto que abrigava o peregrino. Inúmeras sementes foram dispersas sobre a areia e as dunas, em quantidades incontáveis. Em todas as direções, a vista abrangia a variedade de cores das sementes, provenientes de árvores e flores. Todo o deserto se viu coberto por elas. Em seguida ao sopro do vento, chegaram as nuvens. Carregadas de um peso silencioso, e sentindo sede, hauriram água em abundância do mar, e após saciarem essa necessidade, dirigiram-se ao deserto, onde iniciaram seu pranto. Despejaram ali suas lágrimas, seu suor, suas águas, em um fluxo torrencial, tamanha a abundância, que o deserto inteiro se encharcou, foi totalmente irrigado. O peregrino, observando, contemplava admirado este espetáculo da natureza.

 Após algumas semanas, as primeiras flores silvestres desabrocharam e as primeiras videiras se espalharam pela areia do deserto. Diversas árvores, ainda em fase inicial de crescimento, começaram a surgir, e o deserto inteiro demonstrava sinais de vida. Um evento incomum, algo magnífico, estava em curso, e o viajante observava, maravilhado, como o deserto outrora amarelo era gradualmente tomado por um mar de vegetação verdejante que se estendia até o horizonte, perdendo-se de vista.

 O tempo decorreu, e o deserto deu lugar a uma vasta floresta, exuberante de flores e frutos. Era um refúgio de alegria, um pomar de árvores frutíferas, onde o peregrino experimentou uma profunda metamorfose. Antes limitado à contemplação noturna das estrelas, escalando montanhas para melhor apreciar a vastidão celeste, ele deixou de ser um simples viajante. Agora, dedicava-se à colheita, colhendo flores e frutos em abundância.



Mais do que isso, vivia uma vida de contemplação ainda mais intensa. A floresta, antes deserto, fora transformada pela beleza das flores e pela fartura dos frutos, impulsionada pela força da natureza e pelo desejo humano. O anseio de um homem que outrora peregrinava pelo deserto, desejando a transformação do mundo, concretizou-se.

 Quando o mundo se transforma, aqueles que alimentaram o desejo por essa mudança são os primeiros a desfrutar da profunda bênção que a vida pode oferecer. Essa experiência é reservada àqueles que carregam em seus corações o profundo anseio por um progresso contínuo, visando um futuro ainda mais promissor.
 Desde então, o céu ressoava com o canto dos anjos sobre a floresta exuberante, adornada por frutos e flores. As abelhas ali construíram suas colmeias, e a floresta passou a oferecer mel em fartura. O mais notável, contudo, foi o surgimento de pessoas. Indivíduos famintos, cuja existência o peregrino desconhecia, foram atraídos pela abundância. Em busca de alimento, saciaram sua fome com os frutos generosos, e crianças também se juntaram a eles. A floresta se transformou em um santuário de vida, abrigando não só a flora e a fauna, mas também a humanidade. Homens, mulheres e crianças, impulsionados pela fome, encontraram na floresta o sustento, trocando-o pelos frutos saborosos.

Ao testemunhar essa efervescência de vida, de esperança e de satisfação, o peregrino sentiu-se imerso em um movimento que conduzia à alegria. Essa experiência tornou-se uma lição valiosa para o homem outrora solitário. Agora, cercado por outros, desfrutava da comunicação e da convivência. A solidão desaparecera em meio às flores e árvores, em meio aos campos verdejantes e floridos. Talvez tenha sido esse o principal catalisador para que o peregrino vivesse o restante de seus dias em plena felicidade, encontrando na alegria alheia a satisfação que lhe proporcionava a completa realização.

 

 

C. J. Jacinto


 

 

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Compreender o Amor

 Há uma frase atribuída a Clarence Jordan, do qual ele disse assim: “A medida de um cristão não está no auge de seu alcance, mas na profundidade do seu amor.” Diante de nós, deve haver uma compreensão precisa. No amor, não há elementos abstratos. O amor é uma experiência intensa, profunda, dinâmica e transformadora. Por isso, Jesus, em seus ensinamentos, declara que um dos maiores mandamentos é amar o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento. Essa é uma clara indicação de que devemos amar a Deus profundamente, assim como devemos amar o próximo com a mesma profundidade e intensidade. Reconheço que isso representa um desafio significativo nos dias atuais, pois a sociedade parece cada vez mais centrada no indivíduo. A ênfase no amor-próprio, desvinculada do amor ao próximo e a Deus, pode ser vista como uma característica da conduta humana que se manifesta nos tempos atuais.

 O amor é o mais nobre dos sentimentos. Ele se manifesta de forma singular no homem piedoso, aquele que se dedica à santidade. Para este, o amor a Deus é preeminente, abrangendo todo o ser: coração, alma e mente. Este amor transcende a própria existência, valorizando a verdade divina acima da segurança pessoal.

 Observamos essa devoção, por exemplo, na vida de Daniel, durante o exílio na Babilônia. Para ele, amar a Deus representava uma fidelidade inabalável. Daniel amava a Deus sobre todas as coisas. Toda sua vida era dedicada ao serviço e à busca da vontade divina.

Podemos observar a manifestação desse amor na vida dos mártires. Eles demonstraram plena disposição para sacrificar suas vidas em prol do evangelho e por amor a Cristo. Não se apegaram às suas próprias vidas, enfrentando a morte com coragem. Trata-se de um amor extraordinário, cuja característica principal é a fidelidade. Todo homem verdadeiramente piedoso ama a Deus acima de todas as coisas.

 Recordo uma frase que me impactou no início da minha jornada de fé, atribuída a Watchman Nee, possivelmente proferida durante seu encarceramento e nos últimos dias de vida, em razão de sua fé. Ele teria dito: "O preço que estás disposto a pagar pelo Senhor determinará o amor e o valor que Ele terá em tua vida." Considero que essa frase encapsula a essência do amor a Deus, pois foi expressa por um homem que, aprisionado e à beira da morte, manteve sua fé inabalável. Ele não considerou sua própria segurança, nem seus interesses pessoais, mas fixou seu olhar em Jesus, o autor e consumador da fé, reconhecendo-o como algo de valor inestimável, pelo qual valia a pena amar e, se necessário, morrer.

 Foi essa a postura de Watchman Nee, o mártir. E é essa mesma postura que molda um homem verdadeiramente piedoso.

 

C. J. Jacinto