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domingo, 5 de outubro de 2025

O Vale da Escuridão

O Vale da Escuridão

 C. J. Jacinto

Entre este planeta habitado por seres mortais, estendia-se um vale profundo e sombrio, onde a escuridão imperava constante. A noite, em sua essência, trazia consigo a obscuridade. Contudo, mesmo durante o dia, densas nuvens negras pairavam sobre o vale, impedindo a passagem da luz solar. A escuridão dominava aquele lugar. Ali residia um homem, juntamente com muitos outros, consumidos pelo desânimo, tanto de dia quanto de noite, sobrecarregados por um fardo. A tristeza, alojada em seus corações, emergia com a noite, trazendo consigo a nostalgia e a amargura, sentimentos familiares àqueles que jamais contemplavam a claridade do sol.

 Naquele lugar, a identidade visual de cada indivíduo permanecia oculta, restando apenas o eco de suas emoções: o pranto e a lamentação. O olhar, direcionado ao céu, deparava-se unicamente com a profusão de nuvens que, ao longo do dia, dominavam a paisagem e, à noite, obscureciam o brilho das estrelas. Tal era a condição dos que ali habitavam, imersos em uma atmosfera de profunda escuridão.

 Certa vez, todos os homens se reuniram e expressaram a necessidade de uma ação. Afirmaram que a situação em que viviam era insustentável, uma condição adversa e complexa, que lhes impedia de se reconhecerem e de reconhecerem uns aos outros. A impossibilidade de contemplar seus próprios rostos, de observar seus reflexos, resultava em uma profunda ignorância de si mesmos e do próximo. Lamentavam a dificuldade de vivenciar a alegria do nascimento, a beleza de suas companheiras e a imagem angelical de seus filhos. Diante dessa realidade, consideraram urgente a busca por uma solução.
 Contudo, uma geração sucedia a outra, e as ações concretas permaneciam inalteradas. Realizavam-se encontros em diversos locais, expressando-se pesar pela situação. Cada indivíduo, porém, parecia caminhar com sua esperança extinta, como se carregasse um peso, um fardo inútil desde o nascimento até a morte.
 A tristeza pairava densa sobre todos aqueles aspectos, evocando uma profunda nostalgia e melancolia que se estendia por aquelas terras, vales e montanhas, atingindo as cidades fúteis. Desses lugares, do alto de um monte, nenhuma luz sequer podia ser avistada. Era um ambiente de trevas e desolação, que, a quem ali permanecesse, infligia uma profunda agonia, uma angústia na alma, impedindo a autocompreensão e a empatia. Imaginem rosas a desabrochar, murchar e morrer sem que seus habitantes conseguissem discernir as cores de uma rosa amarela e uma vermelha. Tal era a condição daqueles que, embora lamentassem e clamassem por ação, permaneciam indiferentes, até mesmo procrastinando a transformação radical que seu ambiente demandava.
 Contudo, cumpre ressaltar um detalhe singular: uma nuvem, a única nuvem que anualmente se detinha sobre o cume da montanha mais alta da região. Durante sua permanência diurna, mesmo em meio à escuridão, manifestava-se um clarão, um reflexo, uma luz intensa que durava apenas alguns segundos, talvez menos. Nesse breve instante, uma luz fugaz irradiava-se, tão efêmera que impedia a identificação precisa dos rostos daqueles que, do alto da montanha, testemunhavam o fenômeno.
 Uma criança teve uma ideia. Ela dirigiu-se ao pai e disse: "Pai, poderia me emprestar sua lâmpada? Preciso muito dela." O pai, curioso, perguntou: "Para que necessitas de uma lâmpada? Uma lâmpada comum, que não te iluminará em nada, pois não fará mais do que ser segurada em tuas mãos." O filho respondeu: "Irei à encosta da montanha, e esperarei as nuvens. Quando uma nuvem, por um breve instante, liberar dois ou três raios, tomarei uma direção, e a encosta me guiará para cima. Lá esperarei por um ano, até que ela retorne, para que eu possa trazer de volta, para todos nós, a esperança."

 Assim sucedeu. O pai entregou à criança sua lâmpada. A criança, então, apanhou um alforje com muitos pães e muita água, e ascendeu com dificuldade a montanha. Contava os dias para que, no momento da ascensão, estivesse próxima da nuvem que anualmente presenteava o vale com, ao menos, breves relâmpagos de luz, ainda que tênues, a fim de testemunhar a esperança. Pois essa era a missão da nuvem: comunicar aos homens daquele lugar que a esperança existia.


 Faltando poucos dias para que a jovem se aproximasse novamente, o pai da criança providenciou-lhe uma alforje com pão e um cantil com água. O menino, sem hesitar, iniciou a subida, avançando lentamente. Sabia que levaria alguns dias para atingir o cume e mais alguns dias para retornar. Os cálculos foram feitos para que chegasse ao topo com antecedência, a fim de observar a chegada da nuvem. Ao alcançar o cume, comeu pão, bebeu água e, próximo à sua lamparina, aguardou a chegada da nuvem. Ali, conceberia uma grande ideia.

 Ele almejava capturar um raio, daqueles clarões provenientes das nuvens. Imaginava que, ao fazê-lo, poderia distribuí-lo e direcioná-lo à terra. Antecipando a aproximação da nuvem, percebeu seu deslocamento sobre o cume. Empunhou sua lâmpada e lançou-a ao ar, pois os anciãos afirmavam que, se uma lâmpada de metal fosse polida até o brilho de um espelho, atrairia raios. Observando o movimento da nuvem, posicionou a lâmpada sobre uma pedra, a uma curta distância. Quando os primeiros relâmpagos irromperam, um deles atingiu a lâmpada. Esta, repleta de óleo, acendeu-se. O jovem, segurando a lâmpada flamejante, contemplou a paisagem e percebeu que o cume da montanha estava adornado por inúmeras flores.

 Ao descer por uma trilha que se revelava sob a intensa claridade, ele se aproximava. A multidão, reunida abaixo, observava o menino que portava uma lâmpada. Uma pequena luz, emanada do cume da montanha, descia lentamente, e o povo regozijava-se com a presença do jovem que agora caminhava com a lâmpada acesa. Ao alcançar a planície, a grande multidão formou uma fila. Então, um a um, o menino começou a transferir o fogo de sua lâmpada para as outras. Cada pessoa recebeu uma centelha, e assim, cada lâmpada foi acendendo, transformando-se em uma imensa fonte de luz. Em pouco tempo, milhares e milhares de pessoas portavam lâmpadas acesas. Com a iluminação, o vale inteiro foi transformado. Agora, cada indivíduo podia contemplar o rosto do outro. As nuvens escuras, temendo a vasta quantidade de luz, começaram a se dissipar, desfazendo-se uma a uma. O céu tornou-se azul e nuvens brancas surgiram. A luz do sol também brilhou, e as pessoas, maravilhadas, contemplavam o céu, exclamando sua beleza. Outros observavam as pequenas nuvens que flutuavam, e um grande júbilo tomou conta do lugar. Agora, a luz do dia revelava as montanhas, os vales, os córregos, as árvores; tudo era visível. A magnificência da natureza se revelava. Ademais, no primeiro dia de sol, ao testemunhar o pôr do sol, a beleza do entardecer também foi contemplada. Uma cena verdadeiramente maravilhosa. Alguém tentou apagar sua lâmpada, mas o menino advertiu: "Não apagueis vossas lâmpadas, pois precisaremos delas para as noites que virão."

 Após o anoitecer, os presentes contemplaram um céu profuso em estrelas. A presença da lua, discreta e serena, colaborava para a iluminação da noite. A suavidade do ambiente era evidente, combinando a luz lunar com o brilho das lâmpadas, que aqueciam e iluminavam o local. Com a chegada da alvorada, um novo espetáculo se apresentou àqueles que ali estavam: o amanhecer. O sol, ascendendo por trás das montanhas, despertou grande alegria, pois perceberam que a vida alternava entre a beleza da noite estrelada e a luminosidade do dia ensolarado. E, assim, descobriram a possibilidade de felicidade na simples contemplação dessas maravilhas.

 

 


 

O Despertar do Paraíso

 

O Despertar do Paraíso



Em um deserto vasto, erguia-se uma imponente figueira, sob a qual um peregrino, a cada entardecer, estabelecia seu acampamento para o pernoite. Ele portava consigo um antigo volume, fonte de meditação sobre um destino singular e a incessante busca pelo sentido da existência. Todas as noites, sob o manto estrelado, acendia seu modesto candeeiro e, à sua tênue luz, dedicava-se à leitura de algumas páginas. Por longos e incontáveis anos, não houve outro livro em suas mãos senão aquele exemplar único e intensamente manuseado, cujas páginas, já amareladas, evidenciavam a passagem do tempo e a constância de sua leitura. Era este o renomado “O Deserto dos Tártaros”.

Sua existência era marcada pela solidão. Órfão desde a tenra idade, por iniciativa própria decidiu explorar os confins mais inóspitos e remotos do planeta. Dada a constante necessidade de resguardar-se, elegeu uma figueira como refúgio noturno, buscando proteção contra o orvalho gélido das noites desérticas. Sua vida era intrinsecamente dedicada à introspecção; ele refletia mais do que proferia, dada a ausência de interlocutores para compartilhar pensamentos ou dialogar. Sua existência, rica em valiosos tesouros interiores, alicerçava-se em uma interioridade profunda, onde albergava uma percepção ilimitada de seu próprio ser. Embora consciente da perene companhia da solidão, não se deixava abater por tal condição. Encontrava nos grãos de areia do deserto e no cintilar das estrelas celestes um peculiar lenitivo para sua solitude.


Durante muitos anos, aquele ancião, já envolto em vestes esfarrapadas, percorria as vastas extensões do deserto, ora internando-se na frondosa floresta, ora cruzando as campinas em busca de flores. Sua existência tornou-se progressivamente mais solitária, e foi nesse isolamento que ele passou a decifrar a linguagem das flores, das estrelas e das árvores. Sua comunicação com elas era tão intrínseca quanto sua própria rotina. Tratava-se de um intercâmbio que transcendia a imaginação comum, um diálogo interior profundo que emanava do cerne de seu ser. Uma linguagem acessível apenas àqueles dotados de uma sensibilidade extraordinariamente aguçada, permitindo-lhes interagir de forma que não seria percebida como insanidade pelos observadores externos

Em um dia singular, transpondo o limiar do horizonte, o peregrino adentrou uma floresta e dali ascendeu a um cume adjacente, a fim de contemplar a vastidão do vale que se estendia, a perder de vista, em distâncias que aos olhos se afiguravam infinitas. Permaneceu ali por um período, e logo nuvens incipientemente se desenharam na longínqua extensão do firmamento, no quadrante onde a Estrela Polar indica o norte. Essas nuvens, paulatina e suavemente, aproximavam-se, agrupando-se a outras, tal qual blocos de algodão, atraídas por uma força ignota. Observando a cena, o peregrino testemunhou a confluência de múltiplos cúmulos, até que o firmamento, em sua totalidade, estivesse envolvido por uma camada compacta e sombria. Dela ressoava, para além daquela cortina etérea, um estrondo longínquo, como se uma maquinaria colossal, forjada de gelo e fogo, operasse nas profundezas da abóbada celeste.


Quando as primeiras gotas de chuva principiaram a cair, banhando o campo, as árvores e as flores, ele sentiu, por uma intuição profunda, que toda a natureza – desde as flores e as árvores até a relva – se deleitava com aquelas gotas celestes que caíam sobre as copas e irrigavam o vale, as montanhas e os campos. Um regozijo palpável pairava no ar: a exultação das árvores, da relva, das flores silvestres e das que se abriam nas copas de algumas árvores.



Então, elevando o olhar para as nuvens, interpelou-as: "Ó nuvens, por que não sois conduzidas ao deserto onde habito, para que lá possais irrigar também, com vossas chuvas celestes, a vastidão arenosa, e o deserto possa vicejar em flor? Assim, poderei viver à sombra de uma figueira e contemplar, do meu refúgio, as outrora áridas campinas, para que floresçam e as sementes germinem. Que, onde me encontro, surjam prados verdejantes, repletos de flores silvestres, e o aroma inebriante de seus perfumes me envolva nas noites em que contemplo as estrelas."

 Responderam as nuvens ao peregrino: "Sim, iremos, mas antes é crucial que transmitas as nossas diretrizes ao vento. Dir-lhe-ás que deverá recolher sementes de todas as florestas e de todas as campinas, e as leve, para que repousem sobre o deserto onde habitas. Após o vento acatar as tuas ordens e transportar as sementes para o deserto onde habitas, então nós, enfim, iremos e derramaremos nossas lágrimas celestes sobre a terra seca e árida daquele ermo. Consequentemente, as sementes germinarão."
 O peregrino elevou sua voz aos ventos, aqueles que sopram do sul, os ventos impetuosos. A eles pediu: "Ó ventos, peço-vos que, ao atravessardes a floresta, recolhais inúmeras sementes, sementes que germinem sobre o deserto. Percorrei os eucaliptos, as acácias, as palmeiras, as embaúbas, os flamboyants, as acácias, os jacarandás, os anjicos, as magnólias, as cerejeiras e os pessegueiros, e disseminai as sementes. Convidai os pássaros a voarem em vossas asas, para que também eles transportem e lancem muitas sementes sobre o deserto, sobre a minha morada, sobre o refúgio da minha esperança. Que ele floresça, que eu possa habitar em meio às flores, e desfrutar dos perfumes e dos aromas dos frutos maduros."


Do alto da esfera celeste, exalou-se um sopro sutil, um véu de ar, e com ele iniciou-se o movimento dos ventos. Estes, adentrando a floresta e as planícies, recolheram em seu curso outras brisas. As aves, guiadas pelas correntes aéreas, impulsionavam em voo suas asas e bicos, carregando consigo numerosas e valiosas sementes. O vento alcançou então o deserto, o deserto que abrigava o peregrino. Inúmeras sementes foram dispersas sobre a areia e as dunas, em quantidades incontáveis. Em todas as direções, a vista abrangia a variedade de cores das sementes, provenientes de árvores e flores. Todo o deserto se viu coberto por elas. Em seguida ao sopro do vento, chegaram as nuvens. Carregadas de um peso silencioso, e sentindo sede, hauriram água em abundância do mar, e após saciarem essa necessidade, dirigiram-se ao deserto, onde iniciaram seu pranto. Despejaram ali suas lágrimas, seu suor, suas águas, em um fluxo torrencial, tamanha a abundância, que o deserto inteiro se encharcou, foi totalmente irrigado. O peregrino, observando, contemplava admirado este espetáculo da natureza.

 Após algumas semanas, as primeiras flores silvestres desabrocharam e as primeiras videiras se espalharam pela areia do deserto. Diversas árvores, ainda em fase inicial de crescimento, começaram a surgir, e o deserto inteiro demonstrava sinais de vida. Um evento incomum, algo magnífico, estava em curso, e o viajante observava, maravilhado, como o deserto outrora amarelo era gradualmente tomado por um mar de vegetação verdejante que se estendia até o horizonte, perdendo-se de vista.

 O tempo decorreu, e o deserto deu lugar a uma vasta floresta, exuberante de flores e frutos. Era um refúgio de alegria, um pomar de árvores frutíferas, onde o peregrino experimentou uma profunda metamorfose. Antes limitado à contemplação noturna das estrelas, escalando montanhas para melhor apreciar a vastidão celeste, ele deixou de ser um simples viajante. Agora, dedicava-se à colheita, colhendo flores e frutos em abundância.



Mais do que isso, vivia uma vida de contemplação ainda mais intensa. A floresta, antes deserto, fora transformada pela beleza das flores e pela fartura dos frutos, impulsionada pela força da natureza e pelo desejo humano. O anseio de um homem que outrora peregrinava pelo deserto, desejando a transformação do mundo, concretizou-se.

 Quando o mundo se transforma, aqueles que alimentaram o desejo por essa mudança são os primeiros a desfrutar da profunda bênção que a vida pode oferecer. Essa experiência é reservada àqueles que carregam em seus corações o profundo anseio por um progresso contínuo, visando um futuro ainda mais promissor.
 Desde então, o céu ressoava com o canto dos anjos sobre a floresta exuberante, adornada por frutos e flores. As abelhas ali construíram suas colmeias, e a floresta passou a oferecer mel em fartura. O mais notável, contudo, foi o surgimento de pessoas. Indivíduos famintos, cuja existência o peregrino desconhecia, foram atraídos pela abundância. Em busca de alimento, saciaram sua fome com os frutos generosos, e crianças também se juntaram a eles. A floresta se transformou em um santuário de vida, abrigando não só a flora e a fauna, mas também a humanidade. Homens, mulheres e crianças, impulsionados pela fome, encontraram na floresta o sustento, trocando-o pelos frutos saborosos.

Ao testemunhar essa efervescência de vida, de esperança e de satisfação, o peregrino sentiu-se imerso em um movimento que conduzia à alegria. Essa experiência tornou-se uma lição valiosa para o homem outrora solitário. Agora, cercado por outros, desfrutava da comunicação e da convivência. A solidão desaparecera em meio às flores e árvores, em meio aos campos verdejantes e floridos. Talvez tenha sido esse o principal catalisador para que o peregrino vivesse o restante de seus dias em plena felicidade, encontrando na alegria alheia a satisfação que lhe proporcionava a completa realização.

 

 

C. J. Jacinto


 

 

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Compreender o Amor

 Há uma frase atribuída a Clarence Jordan, do qual ele disse assim: “A medida de um cristão não está no auge de seu alcance, mas na profundidade do seu amor.” Diante de nós, deve haver uma compreensão precisa. No amor, não há elementos abstratos. O amor é uma experiência intensa, profunda, dinâmica e transformadora. Por isso, Jesus, em seus ensinamentos, declara que um dos maiores mandamentos é amar o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento. Essa é uma clara indicação de que devemos amar a Deus profundamente, assim como devemos amar o próximo com a mesma profundidade e intensidade. Reconheço que isso representa um desafio significativo nos dias atuais, pois a sociedade parece cada vez mais centrada no indivíduo. A ênfase no amor-próprio, desvinculada do amor ao próximo e a Deus, pode ser vista como uma característica da conduta humana que se manifesta nos tempos atuais.

 O amor é o mais nobre dos sentimentos. Ele se manifesta de forma singular no homem piedoso, aquele que se dedica à santidade. Para este, o amor a Deus é preeminente, abrangendo todo o ser: coração, alma e mente. Este amor transcende a própria existência, valorizando a verdade divina acima da segurança pessoal.

 Observamos essa devoção, por exemplo, na vida de Daniel, durante o exílio na Babilônia. Para ele, amar a Deus representava uma fidelidade inabalável. Daniel amava a Deus sobre todas as coisas. Toda sua vida era dedicada ao serviço e à busca da vontade divina.

Podemos observar a manifestação desse amor na vida dos mártires. Eles demonstraram plena disposição para sacrificar suas vidas em prol do evangelho e por amor a Cristo. Não se apegaram às suas próprias vidas, enfrentando a morte com coragem. Trata-se de um amor extraordinário, cuja característica principal é a fidelidade. Todo homem verdadeiramente piedoso ama a Deus acima de todas as coisas.

 Recordo uma frase que me impactou no início da minha jornada de fé, atribuída a Watchman Nee, possivelmente proferida durante seu encarceramento e nos últimos dias de vida, em razão de sua fé. Ele teria dito: "O preço que estás disposto a pagar pelo Senhor determinará o amor e o valor que Ele terá em tua vida." Considero que essa frase encapsula a essência do amor a Deus, pois foi expressa por um homem que, aprisionado e à beira da morte, manteve sua fé inabalável. Ele não considerou sua própria segurança, nem seus interesses pessoais, mas fixou seu olhar em Jesus, o autor e consumador da fé, reconhecendo-o como algo de valor inestimável, pelo qual valia a pena amar e, se necessário, morrer.

 Foi essa a postura de Watchman Nee, o mártir. E é essa mesma postura que molda um homem verdadeiramente piedoso.

 

C. J. Jacinto

 

O Fluxo da Existência - C. J. Jacinto

 



O Fluxo da Existência 



Caminho por essa via rápida

A vida

Em dimensões longínquas

Um fugitivo

Decifrando enigmas e montanhas

A vastidão dos pensamentos

A estigmatização da alma

Flagelos do tempo e cicatrizes

Os pormenores da antiguidade 

As décadas guardadas no passado

Nas caixas acústicas de minha memória 

A aurora que amparou a vírgula

Da frase que fez divisa do real e o sonho

No assombro de imaginações infantis

Me dou conta que ainda existo

E se Deus quiser

No esquecimento ainda serei lembrado.


C. J. Jacinto.


Portais Eternos

 Portais Eternos


Flui do dia meus anseios 

De ver distante meus sorrisos 

Que desabrocham nas manhãs invernais 

A foz naufraga de meus gritos

No silêncio que o eco desfaz


Sonhos transitam incertos

Flutuam nas nuvens de Magalhães 

Nos tormentos de mares e cais

A lágrima solitária que cai armada

Na névoa áurea que o sol desfaz


As ondas bravas desbravam a areia

Anuncia o vau de  cantos árticos 

Do frio atroz que enrijece  mais

Nas noites destiladas do orvalho fausto

O meu opróbrio que ataca sagaz 


Ah meu tempo que desliza aurora

Quando a tarde  salta as horas 

No céu que cintila a espera mais audaz 

Estou sóbrio e olho firme o vórtice 

Aguardando a vinda da eterna paz


Quando pois enfim o fim 

Que aguardo aos finitos prantos  

No passado finado expirou os "ais'

Contemplo o Principio e o Fim

E régio cântico de entrada aos portais


C. J. Jacinto

Chuvas da Primavera C. J. Jacinto

Chuvas da Primavera

 

C. J. Jacinto



Hoje, o dia apresentou uma singularidade. Apesar de ser uma manhã primaveril, o canto dos pássaros foi substituído pelo som da chuva a cair sobre o telhado. Um dia nublado, carregado de águas e da melancolia que as acompanha. Nem mesmo os trovões, em sua profundidade, conseguiram dissipar essa tristeza que se apegava às nuvens. Da janela do meu quarto, observei a névoa envolvendo a vegetação, como um véu. Considero as montanhas semelhantes a esse véu, dissolvendo-se na imaginação e ocultando os receios que habitam nosso interior. Empunhei meu livro e, em sua leitura costumeira, busquei uma fuga da melancolia, um portal para outra dimensão, o universo da imaginação, onde meu coração pudesse interagir com a narrativa.

 Ao término da leitura, a seguinte questão emerge: enquanto me deleitava com a cena jubilosa nas páginas daquele livro antigo, outrora silencioso na estante de minha biblioteca, meu coração se enchia de júbilo. Ao acompanhar a narrativa daquela grande aventura, comecei a refletir sobre como podemos nos transportar de uma realidade melancólica para uma fantasia plena de alegria, vivenciando-a de modo tão intenso que a sentimos real, e nos libertando completamente do cenário original. Onde as sombras da monotonia, representadas pelas "chuvas", pareciam minar nosso ânimo, conduzindo-nos a um estado de desânimo e letargia.
 Após imergir na melancolia, que, por sua vez, evoca a nostalgia, poderíamos discorrer sobre o universo que se manifesta em nosso interior como um renascimento. A melancolia, neste sentido, permite-nos recordar momentos pretéritos e, com eles, a saudade, uma saudade intensa. Refiro-me àquela saudade da infância, quando observávamos a chuva e, nela, vislumbrávamos a felicidade plena, a possibilidade de brincar na lama e viajar em um mundo aparentemente cinzento, mas que aos olhos infantis resplandecia em todas as cores. Era como se pudéssemos contemplar o arco-íris, antes que a tempestade se dissipasse. A percepção de uma criança, de fato, transcende o instante presente, ultrapassando a realidade imediata e revelando perspectivas além das fronteiras do espaço e do tempo.

 É lastimável que tenhamos perdido essa perspectiva, essa visão infantil, e, por conseguinte, deixamos de contemplar a chuva através da janela, incapazes de enxergar nos pingos que caem sobre o telhado a alegria que outrora nos proporcionavam. Ao invés disso, a tempestade e as chuvas intensas evocam em nós sentimentos profundos de tristeza, como se o próprio céu lamentasse conosco. Desta forma, parte de nossa existência se dilui nesse mar de nostalgia, no qual nos vemos presos, como se um dia chuvoso fosse um cárcere, uma prisão que impede a nossa alma de transcender o espaço em que fomos confinados. Com o olhar, percorremos o ambiente, avistando apenas chuva e névoa, um mundo completamente cinzento, como se a água torrencial banhasse todas as flores.

 Contudo, cumpre ressaltar que, nos momentos em que, absortos, contemplamos a chuva através da janela e nossa alma se entrega à melancolia da paisagem, sentindo apenas a nostalgia de um dia chuvoso, podemos encontrar abrigo nos livros. Ao abrirmos as páginas de uma obra cativante, nossa mente se transporta para a narrativa, e a lembrança da infância ressurge. Começamos a vislumbrar um mundo interior, refletido nas palavras do livro. Um novo universo se revela, repleto de paisagens deslumbrantes, estrelas cintilantes, flores exuberantes, aromas inebriantes e alegria. Um mundo de fantasias, que paradoxalmente se manifesta com tamanha vivacidade a ponto de ofuscar o dia. Uma realidade que permeia nosso amanhecer.

 Nesse universo, contemplamos camelos majestosos, constelações cintilantes e galáxias longínquas. Um mundo onde as águas do mar encontram a areia, e as conchas parecem sussurrar uma melodia imaginária, despertando alegria e movimento em nosso ser. Observamos campos verdejantes, exploramos cidades e vilas, encontrando personagens que moldam nossas emoções, provocando lágrimas ou sorrisos. Contudo, a transformação é constante. A rotina se desfaz, dando lugar a um novo universo, onde nossa alma pode vagar livremente. Encontramos, na narrativa, um espaço para nossa jornada, enquanto a chuva cai suavemente. Penetramos nesse mundo, explorando-o e nos tornando parte dele, como se existisse uma dimensão paralela à nossa. Isso nos leva a refletir sobre os múltiplos aspectos da vida, sobre a possibilidade de vivermos existências além da nossa, e sobre a vastidão do universo que nos cerca. Tal qual o universo, nossa alma, um dia, poderá habitar outro espaço, ao deixarmos este mundo.

 Em meio às páginas de um livro antigo, onde um universo se revela à nossa alma, mesmo que a chuva intensa insista em permear o nosso dia a dia, a rotina se dissolve, permitindo-nos vislumbrar o mundo dentro de outro mundo. Uma jornada mística que nos convida à introspecção. É por meio desse universo que, muitas vezes, devemos trilhar o nosso caminho, buscando a alegria, enquanto, do lado de fora, na chuva, a tristeza pode nos alcançar. Talvez seja assim, pois as chuvas são essenciais para o mundo. Contudo, nossa alma amadurecida pode ter dificuldade em enxergar cores sob a tempestade. Faz parte da nossa perspectiva, uma visão moldada pelos anos vividos, onde deixamos para trás as fantasias da infância. Resta-nos, portanto, a esperança, a esperança que reside em um bom livro, lido na poltrona, ao lado de uma lareira. Com o fogo a crepitar, página após página, podemos nos encantar com florestas exuberantes, com o sol a iluminar as árvores, com cachoeiras a cair e com nuvens a flutuar sem trazer a melancolia da chuva.

 Meu sorriso será audaz, amplo como as dobras de um manto, o manto noturno que cobre miríades de estrelas. É o magistral relato, a narrativa contida em um livro, de um autor desconhecido, e um mundo que se revela à minha imaginação. É como se minha mente se expandisse para um universo distinto, onde minha alma navega e flutua sobre campos de flores exuberantes. É como se minha alma pudesse apreender todos os aromas, todos os perfumes, e extasiar-se com as campinas e fontes cristalinas. As ilhas próximas a mim se apresentam em toda a sua beleza. É como se eu pudesse tocar as estrelas, e elas iluminassem meu interior, onde minha alma jamais se perturba com o medo. O medo da escuridão cósmica. Assim, o dia transcorre, e a melancolia é dissipada por um livro. Um livro que abriga um mundo diferente, uma história distinta, e quebra a tristeza que por vezes permeia minha vida. Mais do que isso, permite que a alma viaje às profundezas de um outro cosmos, onde, em vez de sucumbir à nostalgia de um dia chuvoso, encontro alegria. Uma alegria plena, completa, ao acompanhar a história narrada por um escritor que nunca conheci e por um livro que, por muito tempo, permaneceu silencioso em minha biblioteca.