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quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Fundamentos da Aspiração

 Fundamentos da Aspiração


Fim da noite

A serenidade desta alvorada precoce,

Como um navio fecundo que navega,

Transpôs o reino da luz.

Da porta aberta, contemplo cenas em movimento.

Névoas e trovoadas

Repousam em sementes de fogo,

Em uma distância sempre presente.

Próximo ao absoluto, próximo ao vazio,

Em universos sem rumo,

Em um instante sem divisão.

Dissimulo meus desejos, minhas mágoas.

Aborvo-me na fonte de todas as essências,

E descubro, enfim,

Que despertei feliz.


C. J. Jacinto

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Sentinela do Silêncio

 Sentinela do Silêncio 



Observo com admiração o silêncio que emana da minha saudade. Permaneço atento e vigilante, aguardando o despertar da minha consciência, a fim de que, na profundidade da ausência de palavras, eu possa me reencontrar.

Contemplando o mar sereno, observo as nuvens silenciosas deslizarem sobre mim. Nesse estado, percebo as lacunas do meu coração, ancorado neste refúgio. Inseguro, navego pelos caminhos da vida.

Na alvorada, como sentinela, anseio pela paz e tranquilidade, aspirações universais da humanidade. Apesar de trilhar caminhos que, por vezes, parecem conduzir ao vazio, persisto em minha jornada. Mesmo sob o peso do cansaço, mantenho a busca incessante pelo significado da existência, almejando a compreensão de sua essência.

Aprecio a atmosfera deste jardim. A vista para o horizonte, onde o cume evoca lembranças preciosas. Contemplando a paisagem, meus olhos e meu coração se perdem nas planícies de meus sonhos.

Minha jornada destemida é notável, um percurso em busca de significado para minha existência. Se não fosse pela intensidade da dor, poderia afirmar com convicção que encontrei, em meu caminho, algo de valor inestimável.


C.J. Jacinto



quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Tempos e Tempestades

 



Em momentos de desorientação, aliado ao tempo implacável, percorro as ondulações de paisagens interiores que se desfazem como um mar de vidro. Um temor fausto intranquilo enfim...



Solitário e unilateral, um sonho que se manifesta nas vertigens da minha imaginação. Contemplo o horizonte, a linha do infinito, e me vejo a percorrer o nada, a imaginação imersa em mim mesmo.



Em meio a estas terras de constante mudança, sonho como se fosse uma parte de mim mesmo, separada. Como uma alma errante, busco a união com meu ser, a minha forma, e a compreensão do medo que reside em mim, assim como a natureza efêmera da existência. Pergunto-me...



A turbulência interna, como uma sombra persistente, obscurece a ligação entre a razão e a emoção, afetando profundamente meu ser e conduzindo-o a um estado de desespero. Sinto-me desorientado, sem rumo, e as lágrimas brotam, enquanto meus lamentos ecoam nessa vastidão.



Sinto o sopro de um vento forte, vindo do norte, que dissipa as nuvens escuras que pairavam sobre mim, obscurecendo a noite. Observando, além das montanhas, seus picos e cumes tingidos de vermelho percebi, transcendendo minhas próprias ilusões, a realidade, a estrela da manhã. Sinto-me seguro.


C J. Jacinto


sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Consolação

Consolação

 

Vidas que se perdem na dor
Nos áridos caminhos onde falta o amor.
Sublimes palavras não bastam a consolar
Quem, em preces profundas, só sabe chorar.

Gritos eternos de desolação
Sobre campos minados da doce ilusão;
A névoa da vida passa sem cessar,
E os que restam clamam em lamento e agonia.

Voz atroz que sobe do leito das almas,
Nesse aperto, porém, nunca perde a calma;
Esmagada, a vida se dobra à tortura e aflição —
Sofrer em oração torna-se a causa e a razão.

Das lápides frias não vem consolação,
Mas roturas de mágoa e desolação.
Clama a Deus lá do fundo das profundezas finais,
Como âncoras que seguras as naus nos cais.

Do alto, chega enfim o socorro eternal
À peregrina alma que busca o celestial.
Vem, meu Deus, consolar esses pobres mortais,
Para que em Ti possam, ainda mais, confiar.

 

C. J. Jacinto

 

 

 

 

 

domingo, 13 de abril de 2025

Saga

 


 

Vou ao encontro dos sonhos de amor

Ainda que as lâmpadas pareçam se apagar

Quero ver meu rosto no esplendor

Também sentir a minha alma brilhar

 

Estou partindo, rumo além tão distante

Soprando as vestes em odisséias florais

Esperando o crepitar do fogo da aurora

Longe dos tremores de meus temporais

 

As sombras do álamo escondem minha face

As nuvens  calmas flutuam nas distancias

Sou um alento atento sem esmorecer

 

Quando já o fim do dia desperta meu ser

Percebo as nuances de meus sorrisos sinceros

Um lápis que escrevendo meus anseios sonâmbulos

 

 

C. J. Jacinto

quinta-feira, 6 de março de 2025

Labirinto da Identidade


 

Quem Sou eu? Ente e ser

Raso e profundo

Fugitivo e intrínseco

Naufrago sonhador

Nômade autômato

Ausente e presente

Invariável e ontológico

Sou eu essa entidade numismática

Epitáfio de metáforas

Um artifício psicossomático

Cântaro vertebrado

Consciente e onírico

Taumaturgo e empírico

Peregrino sonífero

Amparo e desalento

Fértil e impávido

Ambíguo e absoluto

Vítreo de alma obsoleta

Côncavo entre dias e décadas

Resiliente e arqueológico

Com respiração ártica

Um pulsar monofásico

Insípido e anticéptico

Frágil e pungente

Fraco e heróico

Tremulo e tácito

Apoteótico e emblemático

Personificado nos pilares da dor

Existente e esquecido

Um carbúnculo cromado

Enigma e crepúsculo infravermelho

Simplesmente sofisticado

Platônico e atômico

Um vassalo avariado

Cerâmica articulada e argila dobrável

Manufatura plasmada na imensidão

O que sou? Ato e essência

Aroma e fragrância

Límpido e obscuro

Etéreo e acústico

Com batimentos customizados

Pórtico e praia

Península, arquipélago e libélula fractal

Eu mesmo, ente e ser

Sou eu?

 

 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

A SOMBRA

A SOMBRA

Estava peregrinando pelos caminhos do entardecer, quando num descuido tropecei em uma pedra, desequilibrando meu corpo, tombei como uma arvore arrancada pelos vendavais. O impacto de meu corpo do no chão lançou minha sombra por cima de mim e caiu logo a minha frente. Percebendo ela o desprendimento de mim, se levantou sacudiu o pó, e fugiu. Quando vi a fuga, gritei:
- Ei!
Mas ela nem olhou pra trás e flutuou correndo como uma nuvem de betume, numa velocidade além de minha capacidade de alcançá-la. Penetrou na floresta para tentar se livrar da minha perseguição, mas penetrei também pelo interior da mata, buscando a foragida. Quem pode andar neste mundo sem uma sombra que o acompanhe diante da luz que resplandece? Sem minha sombra, as pessoas dirão que sou um fantasma, um ente sobrenatural, um enigma, ou seja lá o que for, um exilado.
Mas o tormento da busca logo começou, a floresta esconde outras sombras, esconde mistérios e perfumes, o aroma da floresta é digno de uma aspiração, aquela do fundo da alma e enche a imaginação de breves pensamentos, é difícil explicar o cheiro do mato, um aroma de pedra e ar úmido? Com certeza, o ambiente é um alento pra minha sombra.
Mas ela está despida da sua essência, e indigna de andar só, está ali a espreita em um canto de um arbusto, vejo o pulsar de um coração, é a sombra de um homem e não de uma arvore.
Quando passa aquela jovem, não sei de onde partiu nem pra onde vai, a minha sombra salta a frente e ela se assusta, tão horrorosa cena, a minha sombra agindo da maneira como não quero, uma raiva dentro de mim, preciso me apossar de volta, ela é minha, me pertence, faz parte do meu corpo e de meu ser.
Quando percebe minha presença, corre desesperada, a moça por um lado e ela por outro e eu correndo atrás da minha sombra, que encontra um cavalo a beira do caminho, e num salto súbito, também assusta o Cavalo e até os pássaros tranqüilos nas copas mais altas das arvores mergulham no céu num medo desolador, como se ali um monstro etéreo, um algodão embebido em betume se desprendesse do fim do mundo.
A épica busca pela minha sombra desprendida, correndo de uma lado pra outro fugindo de mim, como se eu fosse o opressor não termina nos limítrofes desta loucura inesperada.
A fugitiva se esconde atrás de uma amoreira, estendo meus braços para tentar agarrá-la com minhas mãos, mas percebo que ela é densa, imaterial, um enigma dantesco, uma celebre nevoa projetada pelo meu ser, desprendida de mim, parte de mim mesmo que se desprendeu como um corpo celeste fora da sua orbita numa queda livre para o lugar nenhum.
Num salto, ela sobe como um relâmpago inverso e se infiltra nas nuvens tempestuosas que se aproximavam indicando o tempo ruim, a moléstia sombria dos trovões, o impacto da minha sombra com as nuvens carregadas de explosivos, ribombeiam trovões, os homens morrem de medo, os animas se escondem, o mar se agita, as arvores tremem, a natureza é sacudida e eu enfrento a tempestade, como disse certo poeta “A tempestade é a falsa noite”. O vento sul sopra, derruba as fortalezas da coragem, a ventania assombra o mundo mas não assusta minha sombra, eu vejo ela caindo como um anjo que abandonou a sua habitação, dou um salto para agarrá-la, mas ela consegue fugir, é um caos a minha cara na lama noturna, um lapso na minha memória, mas estou lúcido, preciso recuperar a minha sombra.
 A lama é tinta no meu rosto, uma narrativa poética do meu desespero, a minha sombra é um vulto noturno que espanta a noite, atravessa o mármore da lapide e espanta os mortos, atravessa a parede das casas e leva pesadelo aos vivos, atravessa a censura e faz travessuras, e eu me envergonho dessas coisas.
E se eu pudesse congelar a minha sombra? Uma idéia louca, parece que estou perdendo o meu juízo, preciso me controlar, a noite está mergulhada nas profundezas do silencio, a tempestade já passou, é madrugada, ando pelas trilhas como um farrapo ambulante, já estou mais parecido nós, se continuar assim, já não haverá mais diferença entre eu e ela, quem é quem na noite escura? A noite não é o reino das sombras? Eu sou o invasor e não ela.  Mas eu preciso dela, sem a minha sombra não serei um humano quando o dia amanhecer.
 Já estou cansado, subi uma pequena campina de relvas, sentia pela respiração o frescor do orvalho, ao longe, viajam o som do canto dos galos, e eu cansado, me assento e vejo ao longe as luzes da vila distante, um amontoado de minúsculas brasas dançando no apogeu da noite. Percebo a minha sombra próxima de mim, eu decido ficar quieto, meu coração bate forte, até as estrelas que aparecem no céu sentem esse pulsar interior dentro de mim. Meus olhos estão fixos nela, mas algo me chama a atenção, uma estrela forte, um brilho vasto de esplendor que aparece no horizonte, atrás dela, um clarão que começa a empurrar a noite para longe, para o outro lado do mundo.  A alva resplandece, minha sombra treme, está amedrontada, eu permaneço intacto na minha postura sentado, não mais olhando para a minha sombra, mas com os olhos fixos na estrela da manhã, ela está lá na hospedaria do silencio da noite, como um diamante incrustado na coroa eternidade, o labor áureo da luz, a graça do orvalho vítreo no gotejar em todas as montanhas, sem muito ruído, a alva sela o novo amanhecer, e a estrela da manhã em sua ordem matutina, a maior!  Reina no céu e a minha sombra se prostra e eu vejo isto, eu me levanto, e quando percebo, vejo que a sombra está atrás de mim. O dia chegou à luz triunfou, desde então, a minha sombra se alinha ao meu destino, a minha escolha é andar diante da luz e a minha sombra sempre condicionada a seguir por ultimo, submissa a destino que tomei, ela serve apenas para indicar que sou um homem mortal.

C. J. Jacinto

Extraído de: Contos Ordinários e Extraordinários