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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Épico de um Infante



Cedo fui embora
Ainda no céu do mar amniótico
No voo vazio do aborto
Na praia de sangue da vida

Cedo fui embora
A varíola e o sarampo me encontraram
Espadas e a guerra dos homens
Na estampa opaca do dia
Na dura sepultura fria

Cedo fui embora
Na fome e no sacrifício negro
Abandono e pobreza vaga
No nenúfar e no veneno doce
Nas caladas  da madrugada da vida

Cedo o relógio tocou
Minha partida e meu silício medo
O absinto do eterno cedo
Fui levado pra terra tíbia
Desterrado no cálice da solidão

Fui embora, alma infante
Anjo que foge do (limbo)
Etérea roupa de recém nascido
Sem despedida e adeus
Sem um beijo de amparo de minha mãe

Fui embora pra longe
Onde os abrolhos não chegam
Onde os espinheiros não ferem
Onde não há mais injustiça
Feliz dia depois do meu silencio


Clavio J. Jacinto

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Aguas do Destino


As águas descem desconsoladas
Pelos rios, ferindo as pedras
Correm, fugindo do cume
Nas discrepâncias das vaidades

Levam as folhas mortas
Num borbulho de ansiedades
Dançando nas extremidades
Como ondas de tempestades

Carregam, parte da montanha
Em um leito flui e transporta
A areia e todos os gravetos
Sedimentos de um passado fértil

Quem dera-me ser como um rio
Nesse alma sempre ferida
Porque no mar vai e se une
Como as dores se unem a vida


CJJ

Jornada em Oceanos


Em solidão fui forjado
Nas entranhas de minha mãe
Lugar celeste
Ventre materno
Em silencio, fui formado
Num mundo pequeno
Cercado de amor
Um oceano que não afogava
Um mar sem navios
Mas meu coração flutuava
Nos mil sonhos umbilicais

Em solidão fui forjado
Marchetado por células e afetos
Nas palavras de "bem vindo ao mundo"
Quando tive que deixar meu chão
Tão pequeno e imenso
Onde meu descanso quieto
velejava
Nesse oceano amniótico
Hoje é minha alma que flutua
Nesse mundo ríspido
De mares salgados de aflições.

Clavio J. Jacinto

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Sobrevivendo ao Desespero


Onde nasce a esperança
Senão nos lugares inóspitos
Do coração
Onde as dificuldades
Transformam-se em oportunidades
Onde as coisas impossíveis
Tornam-se possibilidades
Nasce no coração
A esperança
Tudo ganha mais força
As feridas, meros sulcos
Onde o animo germina
Onde a coragem frutifica
O homem sai cantando
Mesmo em dor
Concebe a experiencia
De ser mais humano
Mais sensível
Mais preparado
Para os grandes triunfos
Que chegarão depois
Da própria sobrevivência


Clavio J. Jacinto

Coração com Asas de Borboletas

Quando o coração se abre
Como asas de borboletas
Voa pelo jardim da vida
Entre aurora e entardecer
Descansa nas cores da violeta
Adormece na chuva e sorrindo
Sente o cheiro do petrichor
A vida é um campo de orquídeas
Um deposito de espadas
Lutamos e descansamos
Como borboletas, voamos
Nos fundamentos dos perfumes
Dormimos e sonhamos
Um grande amor e saudades
Na estrada de argila e verbenas
O coração flutua e aprecia
Com asas azuis e olhos iris
A gota, o derramar do verão
Que entoa o canto das nuvens
Um tanto tonto, o coração cai
Repousa nos braços feridos
Do tão breve destino

Clavio J. Jacinto

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O Caminho das Virtudes



Quando o amor se encontra com a solidão
Todas as virtudes desabrocham
O coração outrora árido
Torna-se jardim de perfumes
A obra prima da solitude
É transformar almas endurecidas
Em espíritos enobrecidos pela sensibilidade


Clavio J. Jacinto

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Letargia Intranquila


1-
Minha dor é minha chuva
Tempestade que me alcança
Minha face perdida na calma
Na alma das águas turbulentas
Nessa solitária peregrinação
No caminho de minhas lamentações
Escrevo “in memorian” à tristeza
Essa realeza sem palácios de feno
Quem me dera colher nesse jardim
Panaceias e gotas de ventos congeladas
Suturas com agulhas de pinheiros
Cantos de pardais debaixo de estrelas
Ah, nessa solidão da monotonia
Como oceano sedento de areia
Vejo-me, reflexo de arrefecimento
As ataduras de minhas vaidades
Quero uma musica pra chorar
Porque os pássaros bebem da chuva
Eu me deparo com o tempo acinzentado
Como moléculas e átomos deprimidos
Assim a tarde vai embora
Tão sórdida como uma arvore seca
Que depois dos frutos, entrega-se

Ao eterno consolo do esquecimento

2-
Fui palha entre a poeira
Espectro de coração ferido
Grito um ai e dois suspiros
Minha alma é sacudida por dentro
Vim de uma terra de ancoras
Em um mar de pó cosmico
Navegam entre as trincheiras
Aqueles que se dizem amigos
Oh que triste fim vem a noite
Depois que essa tarde se encerra
Como um lenço dormente
Que enxuga perolas vagas
Debulhadas na calada do pranto
Em vãos celeiros soltos
Entre as amarras dos trigos
Até quando chorarei a solidão
Como erva da encosta do cume
Num desalento de furia de ventos
Carreguem minha alma pra longe
Num castelo de mármore e gelo
Estou sempre certo que irei
Ao encontro de pura luz branca
Quando minha alma purificada
Adormecer nos braços da fé

3-
Como as estrelas resistem
Ao insistir da noite, a escuridão
Esperarei aguardando
O triunfo da minha alma na luz

Clavio J. Jacinto