A MONTANHA
Foi naqueles últimos dias da
primavera, estava sentado no velho carvalho do vale assombroso, vivi toda a
minha infância e adolescência ali. Quero descrever de modo simples, aquele
imenso vale com uma multidão de entidades, vivendo numa espécie de subsolo de
nevoas. Lugar onde os lírios não
desabrocham e a vida não é tão fácil como se imagina, um lugarejo indesejável
para qualquer coração sóbrio, mas a vida impõe a regra de sobrevivência no
vale. Nessa região obscura, onde as arvores retorcidas pela dor do tempo e o
sufoco da escuridão, já há muitos séculos perderam a esperança de frutificar.
Alem disso, os rios de uma lama escurecida parecendo lagrimas de betume,
exalando aquele cheiro ocre ou sei lá, não consigo descrever o quanto o ar era
desagradável. Mas acima, o sol não conseguia penetrar com ímpeto nessa região,
parecia que aquele lugar era o berço de todas as nuvens de tempestades.
As pessoas que vivem ali,
conseguem compor uma ternura na face, mas a alma chora desafinada pela agonia,
um aço retorcido embriagado com o fel de todas as decepções. Nem mesmo naqueles
dias de dezembro, onde as cigarras cantam de alegria e os pirilampos flutuam
como se fossem pedaços de estrelas cavalgando nas montanhas da noite, mas ali,
nesse tempo, não chegam os pirilampos e as cigarras não cantam, só lamentam.
Quanto tempo vivi ali, entre as velhas figueiras carregadas de barba de
velho e as pedras cheias de uma fuligem pegajosa que conhecemos como “limo de
prantos”. É certo que havia nesses
recônditos, uma calma, mas era uma calma naufragada, como um navio cargueiro
que repousa nas profundidades do mar após o desastre.
Meu coração não se acomodava nesse extenso assombro, como se a escuridão
sentasse no trono do vale, e exigisse a posse eterna sem se preocupar com o labor
de quem quisesse fabricar um castiçal. A escuridão, se ela tem alma, é uma alma
que odeia a luz.
Pode se dizer que ali, ficamos preso sob essas circunstancias, sabemos
que essas trevas devoram, elas consomem toda a nossa existência, até que o ser
se desfaça completamente nelas.
Pensamos que tudo ali é uma felicidade súbita que flutua entre mistérios
tenebrosos, é uma lógica quase louca, não podemos pensar muito, pois a
escuridão densa, como se fosse um acolchoado de nevoas nos impossibilita de uma
meditação profunda, ninguém quer perder o fôlego nessas condições, então a
maior parte do tempo, procuramos um carvalho ou uma figueira velha, e ali
passamos a maior parte do tempo dormindo e lutando para enxotar todos os
pesadelos que vagam pela noite perene buscando um alojamento para desovar seus
espantos, e o que mais buscam são corações adormecidos sem guarnição.
Precisamos recitar uma prece, recriar condições de dormir em paz, mas quase
sempre somos frustrados. Esta é a vida no vale, e sempre encontramos homens em
reuniões com alguém elaborando meros discursos ocasionais, apelando para a
grata retórica de que precisamos da esperança, ela deve estar enterrada em
algum lugar do vale, um dia germinará espontaneamente e então o vale
florescerá.
Depois desses discursos, cada um volta para seu habitat, mas o tempo
passa, todos ficam deprimidos, assistentes involuntários de um conceito fraco
de esperança.
Mas um dia eu encontrei um pergaminho, era tão velho, que a maioria
daqueles que tinham percebido ele, ignoraram pensando ser lixo, mas como sempre
fui dotado de curiosidade, tomei aquele pergaminho e levei para o meu carvalho,
e lá abrindo-o notei que se tratava de um mapa, e nele havia traços que
apontavam para um lugar elevado. Eu não conhecia lugares elevados, nem fazia
idéia do que seria de fato, um lugar que fosse mais elevado além do vale, mas o
pergaminho apontava para um destino, e era uma montanha.
Afinal de contas o que seria uma montanha? questões básicas surgiam no
meu pensamento, e de forma súbita me surge o desejo de seguir o caminho
indicado por aquele mapa e prosseguir. Olhei a minha volta, todas aquelas
arvores retorcidas, olhei para cima, o céu parecia uma pântano. Dentro deste
ambiente uma multidão que vivia nessas condições e tentavam traçar no rosto
algumas expressões de felicidade e satisfação. Não era admirável pois também,
com o tempo, alguns conseguiram encontrar certas raízes que consumidas, davam
momentos prazerosos e os induziam a sonhar um mundo cheio de bolhas coloridas
de sabão, era um espetáculo sonâmbulo, o milagre da noite, a alegria que todos
queria experimentar. A conexão entre a
realidade dos pêsames e as experiências de um êxtase sonâmbulo parecia
nutrir a conformidade de uma vida que se
arrastava na existência, como um verme que se arrasta encima de uma brasa.
Tomei o rumo, uma direção, por um
penhasco que nunca tive interesse em subir, fiz a escalada sem muita
dificuldade, era a direção que o mapa apontava, tomei a decisão de prosseguir,
sob protestos de alguns que me chamavam de louco insensato! Havia uma tradição milenar, que logo acima do
penhasco, entre a fuligem de uma neblina que parecia um vapor de aço, o
oxigênio estava ausente e ninguém conseguiria respirar. Mas minha coragem foi
maior do o meu medo, e nessas condições, saímos do estado de conformidade para
a conquista.
Os minutos pareciam intermináveis, mas comecei a perceber a distancia do
solo, me sentia um pouco medroso e ansioso, mas estava determinado a prosseguir, ainda que ouvisse as lamentações
dos que ficaram me observando, aquele momento pelo menos revelava que havia
alguns que se importavam comigo, algo inusitado, pois numa sociedade egoísta,
as pessoas se tornam como pedras sepultadas individualmente no solo asqueroso
do interesse próprio.
Depois de quase uma hora, a linha
limítrofe do vale chegou, as nevoas ficavam menos densas, e percebi a
intensidade de uma luz brilhante, o coração batia forte, eu ouvia o som de um
alento, um vento suave, então, levantei os braços e com as mãos fiz abertura,
rasgando o véu das névoas, e um astro na noite, uma bola de luz suave suspensa
no céu, algo de beleza impar, a brisa da
noite trazia o cheiro do orvalho, nunca tinha experimentado algo tão bom,
percebi que era o cume de uma montanha, a noite que era iluminada por aquela
luz tão tímida, mostrava um ambiente monocrômico, mas ainda assim havia
contrastes e formas de beleza que nunca percebi lá embaixo no vale.
Além disso, pequenas luzes pontilhadas se espalhavam pelo céu, seriam
brasas de um velho carvalho levadas pelo vento?
Um sentimento envolvia meu
coração, não desejava mais voltar para o vale, fiquei sentado em algo que
parecia relva, mas era úmida e sentia uma textura suave, algo diferente do
capim seco que conhecia no vale. Algumas horas se passaram, uma daquelas brasas
celestes, muito mais brilhante parecia arrastar um clarão consigo, pensei
comigo mesmo em algum lugar distante o mundo começou a pegar fogo.
Nevoas incandescentes, pedaços de algodão em brasas? Que espetáculo
lindo! A relva começava a ganhar uma cor que nunca tinha visto, pouco a pouco o
céu ganhou um tom espetacular, o astro da noite se apagou e um outro de brilho
intenso apareceu. A minha volta arvores vestida de folhas e fantasiada de
frutos e flores, até as pedras estavam revestidas de certa planta rasteira que tinha
minúsculas flores amarelas e vermelhas. Pássaros começaram a cantar, que
espetáculo sinfônico! Permaneci intacto, como se não pudesse ser digno de tal
visão. Havia um certo lugar paradisíaco ou eu estava sob efeito daquelas raízes
e estava vivendo um sonho?
Mas não era! eu pulei de alegria,
respirei fundo, sentei como de habito debaixo de uma pequena arvore. Oh, que
alegria, experimentei uma daquelas frutas lilases e brilhantes, algo delicioso
senti na minha boca, como se um lindo sonho tivesse beijado a minha alma.
Eu continuei pulando com minhas
forças renovadas, o coração parecia querer sair fora de mim para se integrar
totalmente aquele lugar. Eu pensei
comigo mesmo, preciso voltar lá embaixo, pegar todos os meus pertences e vir
morar no alto da montanha.
Minha descida foi súbita, corri para meu carvalho retorcido, tomei meus
pertences. Uma multidão fez um cerco em protestos, expliquei que ia viver no
cume da montanha, eu desejava eufórico voltar para lá, mas meus amigos e
colegas me prenderam com cordas, e cada dia, na minha agonia intensa, conseguia
me desprender e eu corria para o penhasco para subir e ir embora daquele lugar
asqueroso, mas meus amigos me capturavam e me amarravam novamente, assim
durante toda a minha vida, o anseio de ir para aquele lugar tem sido o desejo
do meu coração, e nessa batalha de ser amarrado e solto, um dia me desprenderei
completamente das amarras do vale e estarei para sempre naquele lindo lugar.
C. J. Jacinto
Extraído de: Contos Ordinários e Extraordinarios