Os Cativos de Togarma
C. J. Jacinto
Entre os céus rubros de fim dos tempos, entre
a esperança a longo alcance entre terra e mar, o arquipélago de Togarma,
destaca-se pelos seus habitantes cativos. O conjunto de ilhas serviu de
desterro para certos indivíduos que pensavam por si mesmos. Um grande
despenhadeiro ao norte da ilha principal e um farol, uma torre similar á ilha
de Pharos e uma arquitetura híbrida de futuro e passado, entre nanotecnologia e
figuras góticas, a simetria do caos numa celebre carruagem que flutua nas águas
frias do pacifico sul.
Presos aos grilhões invisíveis
sob traços de uma idade das pedras, os cativos entoam cantos tristes sufocados,
cantam canções aos ventos que fazem as palmeiras e coqueiros tremerem. A
liberdade tem um preço alto numa sociedade de ideais baixos, o fim do mundo é o
fim da sensatez.
A grande praia que
costeava a ilha setentrional estava cheia de pegadas de homens que durante o
dia olhavam para a linha do horizonte, sonhando com o ideal de que um dia algum
navio de resgate viria para buscar os homens mais sábios do mundo, pois o mundo
padeceria sem eles.
O grande dia do
resgate, a redenção dos homens sábios, seria um dia glorioso, e a maioria vivia
alimentando essa tão preciosa esperança. A humanidade precisava de conselhos,
as crianças deveriam aprender sobre as coisas certas e erradas, os jovens
precisavam de orientações éticas para estabelecer uma jornada firme na vida. Um
mundo carente que se desequilibrava nas incertezas precisava de normas e princípios
de vida para não cair no abismo da desilusão.
A grandeza não pode ser
diminuída por conta da estima e defesa dos instintos, a transcendência moral
não ocorre debaixo da infertilidade do acaso e das incertezas, ela precisa
germinar num terreno firme e não em ilusões.
A população do arquipélago de Togarma
experimentava uma paz duradoura, homens sábios estão vivendo suas vidas
sensatas, e não há tantas motivações para a inveja de posses, pois cada um
deles vivia debaixo de um coqueiro que dava a sombra, a água e o alimento que
precisavam, e quando chegavam as tempestades tropicais, se agarravam a eles,
pois era tudo o que possuíam para se protegerem dos ventos e das chuvas.
As noites eram singelas
e pacificas, as estrelas cantavam a sinfonia do silencio, um decreto perpetuo
de majestade que entoava as mais belas poesias sem a necessidade de palavras. E
como era comum, o sono era uma escada para os sonhos mais nobres, o sonho da
liberdade.
É a liberdade do pensar
correto e ser aceito como uma força que coordena a vida para a segurança de
todos, um cenário utópico para aqueles dias, pois o mundo era governados por
loucos, como se de um laboratório saíssem um numero em serie de psicopatas que
se autoproclamavam divinos na astúcia dos instintos mais baixos.
Eu diria com uma
certeza veloz, que não há uma prisão mais nobre do que viver a vida na
liberdade de consciência, ainda que limitado no espaço e no tempo. O preço que
se paga por uma verdade é a opressão daqueles que não suportam ela. Um homem
escravo do erro pode ter o mundo todo para fugir e se esconder, mas no final
das contas ele é mais cativo, mais prisioneiro, aquilo que nos escraviza dentro
de nós é mais cruel e mais devastador, nada pode ser tão trágico quanto uma consciência
carcomida pela indiferença, o não sentir o remorso por fazer apologia ao
equivoco.
Em Togarma não havia
esse tipo de escravidão, a liberdade do coração pode nos levar para os lugares
mais amplos da beleza enquanto a escravidão do egoísmo encerra o coração aos recônditos
mais abissais das trevas.
Um dia, certo verão,
daqueles tão magníficos que o céu parecia ser mais azul, numa manhã ensolarada
de brisa amena, estava os sábios reunidos em conferencia naquela praia já
citada, e um navio despontou no horizonte, aquela minúscula peça metálica que
flutuava nas águas marítimas pouco a pouco se aproximava de uma das ilhas,
aquela que estavam reunidos aqueles homens sensatos.
Um raio de esperança
brilha naqueles corações que olhavam otimista para o navio que ia se
aproximando lentamente, enfim o mundo se lembrou de seus desterrados, com
certeza um salto da consciência fez os homens repensarem sobre os crimes
cometidos e vieram libertar seus heróis cativos.
Mas o romper da aurora
da civilização traz surpresas inesperadas, um arcabouço se abriu, e do navio
foram disparados mísseis com ogivas nucleares, sete ao todos, o alvo era cada
uma das ilhas.
Uma explosão após outra,
as ilhas afundaram, e com elas cada homem sensato, um grande martírio, o fim do
mundo, a era dos homens se acabou, o que resta na terra são ébrios sem destino
cada qual cavando a própria sepultura para nelas semearem a semente infértil de
suas ilusões, era o fim do mundo, o apocalipse que encerra dentro da maldade
todos os desesperos dos homens que perderam o significado do amor.